A noite estava tão escura que mal se enxergava nada ao redor.
Os tiros ainda soavam esporadicamente ao longe, como os passos da morte se afastando lentamente. Aqueles assassinos já haviam recuado; os que conseguiram fugir, fugiram. Os que não conseguiram, ficaram mortos ali mesmo na avenida. O ar estava carregado com o cheiro forte de fumaça e sangue. O vento da noite trazia esse cheiro até o nariz, causando uma ânsia de vômito.
Caio Mendes encostou-se na porta do carro. O ferimento nas costas doía em ondas, e o sangue da orelha já tinha coagulado, formando uma crosta vermelhoescura. Ele olhou para o céu noturno iluminado pelos faróis do carro e ofegou.
Ele ainda estava vivo.
Hugo estava agachado ao lado dele, olhando em volta com cautela, sem abaixar a arma. — Sr. Mendes, aquelas pessoas já recuaram. Precisamos sair daqui rápido.
Caio Mendes assentiu e apoiou-se na porta do carro para se levantar. Suas pernas estavam fracas. Todo o caos de momentos atrás quase tinha esgotado todas as suas energias.
Nesse momento, uma figura saiu da escuridão.
Ele usava um uniforme de combate preto e o rosto com pintura de camuflagem. Seus passos eram firmes e pesados, e ele exalava a postura de um veterano de guerra. Ele caminhou até Caio Mendes, parou e abaixou levemente a cabeça.
— Sr. Mendes, o senhor está bem?
A voz era grave, com uma calma profissional.
Caio Mendes olhou para ele, franzindo levemente a testa. — De quem você é?
O homem não respondeu, apenas se virou de lado para dar passagem.
Então Caio Mendes viu.
Os faróis do carro ao longe estavam acesos, iluminando os arredores. Uma pessoa estava de pé na luz.
Ela usava um sobretudo bege longo, os cabelos soltos, com algumas mechas sendo levadas pelo vento da noite. O rosto dela não tinha maquiagem nenhuma, iluminado suavemente pela luz da lua. Atrás dela estava o carro preto, com a porta aberta, e vários guarda-costas de preto estavam parados ao lado, observando os arredores com cautela.
Ela apareceu ali, iluminada como se tivesse surgido no meio de um feixe de luz.
A respiração de Caio Mendes parou por um momento.
Ele se lembrou da primeira vez que a viu, fora da sala de cirurgia. Seu avô estava em estado crítico, e ela saiu de lá vestindo um jaleco branco, tirou a máscara e disse "a cirurgia foi um sucesso". Naquela hora ainda havia manchas de sangue no rosto dela, mas seu olhar estava calmo e imperturbável.
A segunda vez que a viu foi no quarto de hospital de sua mãe. Ela usava um jaleco branco e estava sentada na beira da cama, falando suavemente com sua mãe. A luz do sol entrava pela janela e caía sobre ela, suave como uma pintura.
Foi a primeira vez na vida dele que ele sentiu que existia verdadeira luz nesse mundo.
Depois disso, toda vez que a via, ela estava salvando pessoas. Salvou seu avô, salvou sua mãe, salvou aqueles pacientes desconhecidos. O mundo dela parecia ser apenas sobre salvar pessoas, nunca pensando em si mesma.
Agora, ela o havia salvado de novo.
Caio Mendes estava ali, olhando para a mulher na luz.
A garganta dele ficou seca, os olhos arderam, e um sentimento impossível de descrever tomou conta do seu peito. Não era só gratidão, nem só comoção. Era algo muito mais profundo, que subiu como uma maré e cobriu todo o seu ser.
Ela sempre era assim. Sempre aparecia quando ele mais precisava. Como um feixe de luz, iluminando os cantos escuros de sua vida.

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