Ela falou com muita clareza, traçando uma linha limite, sem que um devesse ao outro.
Mas o coração de Caio sentiu uma pontada de dor. Ele olhou para o rosto calmo e distante dela, lembrandose de como ela tremeu sob ele na noite passada, chorou e, no final, adormeceu exausta. Lembrou-se da mancha vermelha no lençol, da postura dela se encolhendo em seus braços em uma dependência inconsciente... "Intervenção médica"? "Esquecer"?
— E se eu disser que não consigo esquecer? — A voz dele ficou um pouco mais grave, com os olhos fixos nela.
Tereza encontrou o olhar dele, com os olhos claros e firmes: — Sr. Mendes, entre nós, além da pequena gratidão que minha mãe pode ter tido pela família Mendes, não há nenhum outro vínculo. Ontem à noite as circunstâncias nos forçaram, e sou muito grata pela sua ajuda. Mas, fora isso, não deveria haver outro tipo de evolução. Você é o líder da família Mendes, eu sou a Tereza Viana que está prestes a se divorciar. Não somos do mesmo mundo, e não deveríamos ter mais interseções.
As palavras dela tinham uma lógica clara e uma posição bem definida, bloqueando todas as possibilidades não ditas por ele.
Caio olhou para ela e, depois de um tempo, de repente deu uma risada leve, mas o sorriso não alcançou os olhos. — Tereza, você é sempre tão racional? Mesmo depois de ter acabado de passar por uma situação daquelas?
— Só sendo racional é que se consegue viver bem. — Tereza abaixou os cílios, olhando para a superfície trêmula da água no copo. — Agir pela emoção só faz as pessoas ficarem frágeis e fáceis de se machucar. Antigamente, eu agia muito pela emoção. Além disso, minha mãe... é o melhor exemplo. — Ela se referia ao fato de sua mãe, Helena, ter se entregado a uma pessoa errada no passado, e acabou morrendo deprimida.
O quarto ficou em silêncio, apenas com o som sutil do vento do ar-condicionado.
Depois de muito tempo, Caio se levantou. Olhando para ela de cima para baixo, seu tom recuperou a calma habitual, mas trazia uma força inquestionável: — Tereza, você pode traçar limites, essa é a sua liberdade. Mas eu, Caio Mendes, faço as coisas com os meus próprios princípios. O que aconteceu ontem à noite, para mim, nunca seria apenas uma "intervenção médica".
Ele fez uma pausa e continuou: — As irmãs da família Ramos e Felipe Ramos, eu mesmo vou cuidar, considere isso como uma prestação de contas para você. Quanto a nós dois... — Ele deu uma longa olhada para ela. — Ainda temos muito tempo pela frente. Beba o mingau primeiro, você precisa recuperar as energias. As roupas e o celular estão ali, Thiago Silva virá às nove horas para levá-la aonde você quiser ir. Se precisar de qualquer coisa, entre em contato comigo a qualquer momento.
Depois que terminou de falar, ele não lhe deu a chance de retrucar. Virou as costas, saiu do quarto e encostou a porta suavemente.
Tereza encostou-se na cabeceira, olhando na direção por onde ele havia saído, com as sobrancelhas levemente franzidas. A última frase de Caio a deixou com um pressentimento não muito bom. Aquele homem... parecia que não planejava seguir o roteiro definido por ela.
Ela pegou a tigela de mingau que ainda estava morno e comeu devagar. O sabor era leve e agradável. O corpo estava de fato muito fraco e precisava se recuperar.


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