O anoitecer caiu e as luzes da cidade se acenderam. As grossas cortinas do quarto principal da mansão da família Ramos já estavam fechadas de novo. Apenas uma luz amarela do abajur estava acesa, alongando a sombra solitária de Berta sentada na beira da cama. O quarto estava imerso em um silêncio opressivo, cortado apenas por sua respiração ligeiramente ofegante e pelos zumbidos ocasionais do celular vibrando.
A tela do celular brilhava com uma luz azul, exibindo um aplicativo de mensagens criptografado. Do outro lado, havia um contato com a foto de perfil toda preta e o nome de usuário sendo apenas um ponto final. Há poucos minutos, a pessoa enviou uma foto: duas pílulas lacradas em cápsulas transparentes individuais. Uma era azul-clara e a outra, rosa-clara, destacando-se de forma estranha no fundo de veludo preto. Abaixo, havia um texto frio:
"A mercadoria chegou no local combinado. A pílula azul é para o alvo, a rosa é para você. Os efeitos e os riscos colaterais nós conversamos pessoalmente. Pagamento em dinheiro vivo, sem nenhum registro."
Berta encarou a foto. A ponta dos seus dedos parou sobre a tela, tremendo levemente. A medicação chegou, a parte mais crucial e perigosa do seu plano. Bastava fazer Adilson tomar a azul e ela engolir a rosa... Contando com o forte efeito da droga, seu conhecimento sobre Adilson e suas investidas gentis, o sangue da família Ferreira teria grandes chances de se enraizar em seu ventre após uma noite.
Essa foi a saída que seu pai apontou, e a forma mais rápida que ela conseguia pensar agora para estabilizar sua posição, ou até mesmo virar a mesa. Com uma criança da família Ferreira, a ameaça daquelas denúncias sobre o passado diminuiria drasticamente, e a família Ferreira teria que aceitá-la por causa das aparências e da linhagem.
Mas... "Explicações sobre os efeitos e colaterais discutiremos pessoalmente". Essas poucas palavras perfuraram seu coração como uma agulha, trazendo uma inquietação. Que efeitos colaterais? Por que não podiam falar direto por mensagem? Eram tão graves, ou... inconfessáveis?
Ela se lembrou de alguns boatos discretos em seu círculo quando foi perguntar sobre a droga. Diziam que o efeito era dominador, mas acompanhado de riscos desconhecidos. O impacto no corpo da mulher que tomasse a pílula parecia ser deliberadamente escondido. Ninguém sabia explicar o que era exatamente, porque quem já tinha usado ou mantinha a boca fechada, ou... não terminava muito bem.
Um frio subiu silenciosamente pelas suas costas. Ela realmente ia apostar seu corpo e seu futuro?
O celular vibrou de novo. Era uma mensagem de Lívia Valente: "Berta, os editores daquelas mídias foram temporariamente 'apaziguados'. A notícia foi abafada e eles prometeram não publicar. Mas insinuaram que o informante é muito habilidoso. As pistas que ele deu são muito 'sólidas', e não foram enviadas apenas para essas mídias. Dessa vez foi pelo dinheiro e pelo nosso relacionamento passado, mas da próxima... vai ser difícil. Ah, e um dos editores mais chegados a mim vazou que o IP do e-mail anônimo foi mascarado várias vezes, mas a direção inicial do rastreamento aponta vagamente para o exterior. A técnica foi muito profissional, não parece ser alguém comum."
Exterior... profissional...
O coração de Berta afundou de novo. Não era Tereza Viana, pelo menos não só ela. Ou... seriam pessoas do passado no exterior? O medo apertou novamente como uma trepadeira fria.


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