Na penitenciária o curso de empreendedorismo acontecia duas vezes por semana, sempre no mesmo horário, sempre na mesma sala sem janelas, com paredes bege encardidas e cadeiras de plástico alinhadas em fileiras quase militares.
Gaspar sentava-se sempre no fundo, mais por hábito do que por escolha. Não gostava de chamar atenção. Não gostava de falar. Gostava menos ainda de ouvir discursos sobre futuro.
Aquele dia não parecia diferente.
O educador, um homem jovem demais para estar ali, como Gaspar diria, falava sobre empreendedorismo, gestão moderna, liderança responsável. Palavras grandes para um ambiente pequeno.
Ainda assim, Gaspar prestava atenção.
Não por interesse real, mas porque aprender rendia dias a menos de pena, e ali dentro o tempo era a única moeda que importava.
— Hoje eu trouxe um exemplo atual — disse o educador, levantando uma revista. — Um case real, brasileiro, de crescimento sólido nos últimos cinco anos.
Alguns presos se inclinaram para frente. Outros bocejaram.
Gaspar não reagiu.
Até que a revista foi apoiada sobre a mesa.
A capa ficou visível por apenas alguns segundos, mas foi o suficiente.
O mundo de Gaspar encolheu.
O nome veio antes da imagem. Ou talvez tenha sido o sorriso. Ele nunca soube dizer exatamente o que doeu mais.
Francine.
A filha que ele não via. A filha que ele não acompanhou. A filha que ele perdeu.
Ela estava ali, grande demais para aquela sala pequena.
Elegante. Segura. Linda.
O tipo de imagem que não combinava com grades, nem com o som metálico das portas se fechando.
Gaspar sentiu a garganta apertar.
— Essa matéria fala sobre a Villeneuve Corp — continuou o educador, alheio ao terremoto silencioso que provocara. — Uma empresa que se consolidou como líder de mercado, com uma gestão moderna, transparente e, sobretudo, familiar.
Familiar.
A palavra bateu mais forte do que deveria.
O educador começou a ler trechos da reportagem.
Falava de crescimento, de visão estratégica, de valores.
Falava de Dorian Villeneuve, de sua liderança firme, da imagem sólida construída ao longo dos anos.
Gaspar não ouvia mais.
Seus olhos estavam presos à foto. Aos detalhes que nunca veria ao vivo. À vida que seguiu sem ele dar permissão.
Quando a revista passou de mão em mão, alguém a deixou sobre a mesa ao lado dele.
Gaspar não tocou de imediato.
Demorou alguns segundos, como se o simples ato de abrir aquelas páginas exigisse coragem demais.
Quando finalmente o fez, leu cada linha com uma atenção quase dolorosa.
Leu sobre o sucesso.
Sobre a empresa.
Sobre a mulher que Francine tinha se tornado.
E, em uma pequena nota lateral, quase discreta demais para quem não soubesse onde olhar, leu sobre a marca de roupas que ela havia fundado. Sobre a decisão de deixar as passarelas para construir algo próprio. Sobre independência. Sobre escolha.
Gaspar fechou a revista devagar.
O educador continuava falando, agora sobre ética, sobre legado, sobre o impacto das decisões no futuro.

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