Mas falar demais soaria falso.
Freya ergueu o olhar e disse num tom suave:
— Sr. Soares, tenha um voo seguro.
Cesar ia responder apenas com um aceno, mas, ao ver o sorriso luminoso da esposa, acabou dizendo:
— Entendi.
Freya ficou na porta, observando-o entrar no carro.
Ele não olhou para trás.
E nem deveria.
O celular tocou. Era Cecília Rodrigues.
[Amiga, o maridão viajou! Bora curtir a noite. Chegaram dois modelos universitários novos, tão novinhos que chega a dar dó. Vou te levar pra apreciar a vista.]
Freya lembrou do constrangimento da última vez. A imagem do abdômen do modelo foi rapidamente substituída pela lembrança dos ombros largos e da postura impecável de Cesar Soares.
[Vou não. Tenho medo de ser pega no flagra.]
Cecília continuou a provocação:
[Medo de quê? Seu marido já tá no céu, ele não vai voltar voando hoje à noite.]
Freya só conseguia pensar na comida que perdeu no almoço. O cardápio sem graça da Casa Verde Rio já estava acabando com o seu paladar.
[Vem pra cá.]
Cecília sorriu com malícia do outro lado da tela:
[Quer que eu leve aquele prato mega apimentado que você ama?]
A boca de Freya encheu d'água só de ler.
[Eu quero o nível máximo de pimenta. Quero lula apimentada, quero tteokbokki apimentado. Quero tudo!]
Cecília foi mais cautelosa:
[O seu marido deixa você comer isso?]
O tom de Freya era quase uma musiquinha de comemoração:
[Meu marido viajou, esqueceu?~]
Cecília: [Sua morta de fome.]
[Vou levar tudo.]
[Seu desejo é uma ordem.]
Leandro Serra deu a partida no carro. Ele virou para trás, parecendo querer dizer algo, mas hesitou.

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