— É ele mesmo, o Taylor Remington dono da fazenda Sun Valley. — murmurou uma delas, com os olhos arregalados.
— Dizem que é bonito, mas pessoalmente… — comentou a outra, corando até as orelhas. — É ainda mais!
Maurício, que estava ao lado, não resistiu e deu uma leve cotovelada no cunhado, rindo.
— Você continua um perigo, mesmo comprometido.
Taylor ajeitou o chapéu, girando o palito de dente entre os dentes com aquele ar tranquilo de quem já está acostumado com esse tipo de comentário.
— Uai, parceiro… — começou ele, com um meio sorriso preguiçoso. — Perigo nada. O que é bonito a gente não escolhe, Deus é quem manda.
Maurício revirou os olhos, segurando o riso.
— E a modéstia, mandaram junto?
— Mandaram, mas veio extraviada. — respondeu Taylor, piscando, arrancando gargalhadas até de seu Arnaldo, que fingia estar ocupado limpando o balcão.
As duas moças, envergonhadas, tentaram disfarçar, mexendo nas sacolas, mas Taylor já tinha percebido o burburinho e resolveu se divertir um pouco, sem perder o respeito, claro. Ele virou-se levemente para o lado delas, apoiando uma mão no balcão e falando num tom calmo, cheio de charme.
— Olha, moças… fico lisonjeado, de verdade. Mas, pra ser sincero, o coração desse cowboy já tem dona. E dona brava, viu? — disse, rindo. — Se ela ouve uma história dessas, sou eu quem vai dormir no celeiro com os cavalos.
As moças riram, meio constrangidas, meio encantadas.
— Ah, mas ela é de sorte — disse uma, suspirando. — Deve ser difícil não se apaixonar por um homem como você.
Taylor inclinou o chapéu, sorrindo de canto.
— Engano seu, mocinha. Difícil mesmo é não se apaixonar por ela. — respondeu, com uma voz mais baixa, mas firme. — Aquela mulher é fogo e calmaria ao mesmo tempo. Quando olha pra mim, o mundo inteiro some.
O comentário deixou a venda em silêncio por alguns segundos. Até dona Lurdes, que vinha da cozinha com uma bandeja de pães, parou e abriu um sorrisinho.
Maurício, observando de lado, cruzou os braços e riu.
— Ah, pronto. Agora o romântico acordou. Vai declamar poesia também, cowboy?
— Poesia eu deixo pros livros. — respondeu Taylor, rindo. — Eu prefiro mostrar o que sinto com atitude.
Maurício inclinou a cabeça, divertido.
— E qual atitude é essa, senhor “Amor de Rodeio”?
Taylor girou o palito de dente nos lábios, fingindo pensar. Depois deu um gole no café e olhou para o horizonte além da janela, onde o sol já começava a se despedir, tingindo tudo com tons de cobre e laranja.
— Aí você tá querendo saber demais, cowboy. — disse, lançando um olhar provocador. — Isso é entre eu e a Lila.
As gargalhadas pipocaram pela venda. Seu Arnaldo chegou a bater no balcão, rindo.
— Eita! O homem tá misterioso! — exclamou, limpando os olhos marejados de tanto rir.
Maurício fingiu indignação.
— Misterioso nada, é safado mesmo! — retrucou, e o povo caiu na risada novamente.
Taylor apenas sorriu, inclinando o chapéu num gesto confiante.
— Ué, o que posso fazer se o amor inspira? — disse, teatral, arrancando novas risadas. — Cada homem demonstra o que sente do jeito que sabe. Eu… — fez uma pausa dramática — prefiro demonstrar praticando.
— Praticando?! — repetiu Maurício, fingindo escândalo. — Pelo amor de Deus, Remington, lembra que tem senhoras presentes!
Dona Lurdes, lá no fundo, soltou uma gargalhada tão alta que quase deixou o bule cair.
— Deixa ele, menino! — gritou ela. — Esse cowboy fala bonito e ama mais ainda. Coisa rara hoje em dia!
Taylor colocou a mão no peito e fez um gesto exagerado de reverência.
— Obrigado, dona Lurdes. A senhora entende a alma poética de um homem apaixonado.
— Poética? — zombou Maurício, rindo. — Você chama de poético, eu chamo de safadeza.
Taylor se virou para o cunhado com um olhar debochado.
— E você, meu caro futuro cunhado, devia ficar quietinho. Se aqueles pastos falassem nem quero imaginar o que eles diriam de você e da minha irmã!
A venda inteira caiu na gargalhada. Um dos homens do fundo, tentando se recompor, comentou:
— Essa conversa vai render história pra cidade toda!
Taylor gargalhou, inclinando-se sobre o balcão.
— Que rendam, uai. Melhor falarem de amor do que de seca, não é?
Taylor levantou a caneca também, fingindo fazer um brinde invisível.
— Um brinde à mulher que me laçou e ainda me fez gostar da corda!
O comentário arrancou aplausos e risadas tão fortes que até o cachorro do lado de fora latiu, como se quisesse participar da festa.
Maurício balançava a cabeça, rindo e tentando conter as lágrimas de tanto rir.
— Rapaz, você não presta mesmo.
— Não presta, não. — confirmou Dona Lurdes. — Mas é o tipo de homem que a gente perdoa, porque é sincero.
Taylor piscou, satisfeito.
— Sincero, apaixonado e domado… por vontade própria.
As risadas diminuíram aos poucos, e por um instante, o barulho do vento lá fora misturou-se ao cheiro de café e pão quente. Taylor olhou pela janela e viu o céu tingido de laranja e lilás.
Ele deu um sorriso discreto e murmurou:
— E pensar que antes eu achava que felicidade era o campo … hoje eu sei que é lar.
Maurício, ao lado, assentiu.
— E o seu lar tem nome, cowboy.
— Tem, sim. — respondeu Taylor, num tom suave, mas firme. — E o nome dela é Lila.
A venda inteira silenciou por um segundo, antes de explodir num coro de “Ahhh” e gargalhadas encantadas.
Seu Arnaldo enxugou os olhos, emocionado.
— Ô, menino… se amor tivesse som, seria o barulho da sua risada quando fala dela.
Taylor apenas sorriu, aquele sorriso grande e sincero que derretia corações e fazia o mundo parecer mais simples.
— Então é isso, seu Arnaldo. — disse, ajeitando o chapéu. — O amor é barulho bom… e o resto é só vento.
E quando ele e Maurício saíram da venda sob o pôr do sol alaranjado, o povo continuou comentando, rindo e suspirando, porque, afinal, não é todo dia que se vê um cowboy apaixonado transformar um simples café em uma declaração de amor.

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