O consultório da doutora Helena ficava no andar superior de uma charmosa clínica, cercada por árvores floridas e janelas que deixavam entrar a luz suave da manhã. As paredes em tom lavanda transmitiam paz, o ar tinha cheiro de flores frescas e café recém-passado. Quadros de bebês sorridentes e pequenos vasos com lavandas completavam o cenário, tornando o ambiente acolhedor, quase doméstico.
Lila observava tudo com o coração acelerado. As mãos suavam, e ela tentava disfarçar a ansiedade enquanto ajeitava a bolsa no colo. Ao seu lado, Catarina folheava distraidamente uma revista de moda, impaciente.
— Que lugar gostoso, né? — comentou Lila, tentando quebrar o silêncio.
— É, parece até casa de vó. — respondeu Catarina, com um sorrisinho de canto. — Se você desmaiar de nervoso, pelo menos vai cair num lugar cheiroso.
Antes que Lila pudesse retrucar, a porta se abriu. Uma mulher de meia-idade entrou sorridente, vestindo jaleco branco e um coque bagunçado que a fazia parecer menos médica e mais amiga.
— Bom dia, meninas! — saudou, com uma voz doce e acolhedora. — Você deve ser a… Lila Montgomery?
Lila piscou, surpresa.
— Ah… não, é Lila Remin… — começou, hesitante, mas Catarina não perdeu a chance.
— Remington, doutora — interrompeu, em tom divertido e cheio de orgulho. — Lila Remington Miller. Ou melhor, a futura senhora Remington.
O sorriso de Helena se abriu ainda mais.
— Ora, que honra! Então é a noiva do fazendeiro mais cobiçado das redondezas. Seu irmão finalmente se rendeu ao amor, Catarina? Fico feliz por isso. — disse com ternura.
Lila corou até a raiz dos cabelos, rindo sem jeito.
— Pois é… parece que finalmente ele se rendeu. Mas também, precisava de uma mulher braba como minha cunhada para laçar o cowboy de jeito. — provocou Catarina, rindo. — E agora com mais um motivo pra ser notícia: vai ser papai.
— Catarina! — Lila a repreendeu, incrédula. — A gente nem sabe ainda!
A doutora riu, encantada com a cumplicidade das duas.
— Tudo bem, meninas. Vamos confirmar direitinho.
Enquanto Lila se acomodava na maca, uma assistente entrou trazendo uma bandeja com instrumentos e um tablet. Era uma mulher jovem, morena, com olhos azuis e um sorriso tenso demais. Depositou os objetos na mesa e cumprimentou:
— Aqui estão os materiais, doutora.
— Obrigada, Melissa. — respondeu Helena.
O nome pareceu ecoar no ar. Lila não deu importância, mas Catarina ergueu as sobrancelhas de leve, reconhecendo o rosto da moça.
Helena sentou-se diante de Lila, abrindo a ficha.
— Então, Lila, me conte um pouco… você mencionou enjoo, cansaço, sono excessivo e algumas mudanças de apetite.
— Sim… tudo me dá enjoo ultimamente. E sinto vontade de dormir o tempo todo, comer coisas inusitadas e estranhas… — confessou Lila, envergonhada. — E… bom, ando meio sensível.
— “Meio”? — provocou Catarina, cruzando os braços. — Doutora Helena ela não pode ver o meu irmão sem camisa que seus olhos brilham e ela começa a ofegar.
— Catarina! — Lila exclamou, rindo nervosa.
Helena sorriu, carinhosa.
— É absolutamente normal. Às vezes o corpo anuncia a gravidez antes mesmo dos exames. E, pelo que você está me dizendo, existe sim uma grande possibilidade. Desejos inusitados, sono em demasia e aumento no apetite sexual são sintomas comuns de gravidez.
O coração de Lila começou a bater rápido, o rosto corou, e ela olhou para a médica com olhos úmidos.
— Então… a senhora acha mesmo que pode ser?
— Acho, sim. Mas vamos confirmar com os exames — disse Helena, com ternura. — Um de sangue e um ultrassom. Assim tiramos todas as dúvidas.
Ela começou a preencher o formulário, com o sorriso sereno. Havia uma doçura genuína em sua expressão, como se soubesse exatamente o peso e a beleza daquele momento.
Mas, no instante em que pronunciou “ultrassom”, um barulho alto cortou o ar: a bandeja metálica caiu no chão com estrondo.
Lila se sobressaltou e Catarina virou o rosto, irritada. Melissa, a assistente, estava pálida, com os olhos fixos em Lila, completamente paralisada.
— Me desculpem! — ela gaguejou, tentando disfarçar. — Eu deixei escorregar, doutora.
Catarina, sarcástica, revirou os olhos.
— Claro, escorregou bem na hora em que ouviu “Remington”. Que coincidência, né?
— Catarina! — Lila a repreendeu baixinho.
Helena tentou contornar o clima, embora uma sombra de curiosidade lhe cruzasse o olhar.
Lila riu entre lágrimas.
— Isso é… maravilhoso.
Catarina enxugou os olhos discretamente.
— O Taylor vai pirar quando souber.
— Vai… — respondeu Lila, ainda chorando. — Será que ele vai?
— Será? Lila meu irmão vai surtar isso sim.
A médica entregou o papel do exame e deu um leve toque no ombro de Lila.
— Parabéns, mamãe Remington. Agende a próxima consulta daqui a vinte dias. Vou passar uns exames e umas vitaminas para você, qualquer dúvida, pode me telefonar.
Lila sorriu, com o rosto iluminado pelas lágrimas.
— Obrigada doutora Helena. — disse Lila com os olhos marejados.
— Não precisa me agradecer Lila, será um prazer fazer o seu pré-natal.
Quando saíram da clínica, o sol da tarde caía sobre a cidade, dourando tudo ao redor. Lila caminhava devagar, abraçando os papéis como se fossem o tesouro mais precioso do mundo.
— Eu não sei se rio ou se choro, Cat… — murmurou.
— Faz os dois, querida — respondeu a cunhada, com ternura. — Porque a vida acabou de te dar o presente mais lindo de todos.
Lila olhou para o horizonte, com o coração repleto.
— Ele vai ser o pai mais insuportavelmente apaixonado do mundo.
Catarina riu alto.
— E você, a mãe mais linda que já pisou naquela fazenda.
As duas se abraçaram, e no meio do som do trânsito e do vento, Lila ainda podia ouvir baixinho, nítido e eterno, o som daquele pequeno coração batendo dentro dela.

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