O jantar avançou como uma procissão lenta e ritualística, embora todos fingissem normalidade. Os talheres batiam nos pratos com um ritmo regular constate, o feijão grosso cintilava no fundo da sopeira, e a carne de panela, com seu molho espesso que envolvia batatas macias, exalava um perfume que lembrava domingos de infância. Maria, inquieta e orgulhosa, circulava como uma anfitriã zelosa, repondo milho cozido, ajustando as saladeiras e lançando olhares discretos para Lila, como quem quisesse medir a felicidade da moça pelo brilho nos olhos.
Lila, num gesto automático, cortou um pedaço generoso da torta de frango, a famosa, e idolatrada, a especialidade de Maria e enfeitou o prato de Leo. O movimento foi natural, tão espontâneo quanto respirar. Talvez por isso tenha doído tanto em Taylor. Ele observou e se calou. O silêncio dele tinha pontas.
— Se eu continuar comendo, vou ter que dormir no celeiro. — Leo brincou, estalando os dedos como quem se prepara para mais uma rodada. — Mas, pra ser justo, é impossível dizer “não” a essa torta. Maria, a senhora devia patentear essa receita.
— Agradeço, meu filho. — Maria sorriu, ruborizada, ajeitando o avental. — Mas segredo de família a gente guarda no coração.
— E abre exceções para quem faz cara de gato pidão. — Lila completou, mordendo o lábio para segurar a risada.
Leo virou-se para ela, cúmplice.
— Funciona com você até hoje.
A frase pousou leve na mesa, mas em Taylor ela se cravou como farpa. O cowboy apoiou os antebraços na mesa, com o chapéu pendurado na quina da cadeira, e respirou fundo, como quem tenta manter um cavalo arisco sob controle. Catarina, atenta, percebeu o leve endurecer da mandíbula do irmão e, instintivamente, tocou o braço de Maurício por baixo da mesa o alertando.
Tomás, tentando manter o foco em qualquer assunto que não fosse o triângulo evidente, engatou conversa sobre negócios e viagens. A cada história, Lila ria, e Leo se lembrava de uma lembrança antiga. Eles se cutucavam com pequenas memórias, como se disputassem quem conhecia o mapa secreto do passado do outro. Taylor assistia, com a mesma impassibilidade de uma tempestade que ainda não desabou, mas que já eletrizou o ar.
— Você lembra naquela feira de ciências na escola que você barganhou que seu projeto fosse escolhido? — Leo perguntou, limpando com o pão de milho o restinho de molho do prato, sem cerimônia.
Lila escondeu o rosto, rindo.
— Léo, pelo amor de Deus… que vergonha.
— Vergonha nada. — ele insistiu, divertido. — Você conseguiu que os professores votassem no seu projeto.
— Lembro que eu sugerir leiloar um beijo. — Lila lembrou, já rindo sem pudor. — E você foi o primeiro idiota a levantar a plaquinha.
— Eu não ia perder a chance. — Leo piscou. — Foi o beijo mais caro da minha vida.
A mesa explodiu numa gargalhada generalizada, inclusive Tomás, que bateu a mão na mesa e sapecou:
— Eu lembro disso! Você tinha quantos anos, Lila, catorze?
— Quinze.
A gargalhada de Taylor não veio. O que veio foi um baque seco dos talheres pousados com força demais no prato. O som foi pequeno, mas suficiente para esvaziar o ar por um segundo. Leo percebeu e, talvez pela primeira vez naquela noite, experimentou o gosto do limite. Ainda assim, com uma ousadia calculada, repôs no próprio prato um pouco de salada e, em tom leve, soltou a faísca:
— Fica tranquilo, Taylor. — disse, aparentemente cordial. — Foi só um beijo de adolescência. Dessas coisas que a gente não esquece… mas também não repete. A não ser que… — ele olhou de viés para Lila, provocador — a plateia peça bis.
O mundo desapertou um parafuso dentro de Taylor. Catarina sentiu e Tomás também. O próprio ar pareceu recuar um passo. Lila arregalou os olhos, sem acreditar que Leo iria tão longe. Mas ele foi.
Taylor inclinou-se sobre a mesa, com a voz saindo baixa, rouca, temperada de poeira e veneno.
— Acho melhor você ficar ciente que na minha casa, ninguém encena história com a minha mulher.
Leo pousou o garfo, endireitando a coluna, com o sorriso sumindo de vez.
— Eu não encenei nada. Só lembrei de um fato e não posso negar que adoraria repetir.
O silêncio se instalou no local. Lila sentiu o sangue fugir do rosto. A frase de Leo ficou ecoando, insolente, provocadora, e o olhar dele, parado em Taylor, tinha um brilho perigoso, quase suicida.
Taylor ficou imóvel por um segundo. Apenas o músculo de seu maxilar se moveu, denunciando o esforço que fazia para não perder o controle. Quando falou, a voz saiu rouca, baixa demais para ser segurança. Ele estava prestes a explodir.
— Repete o que você disse.
Leo sorriu de canto, aquele sorriso torto que sempre precedia um desastre.
— Você ouviu perfeitamente. Ou tá precisando que eu desenhe?
— Leo, cala a porra da boca! — retrucou Tomás irritado encarando o amigo. Mas Leo ignorou e a cadeira de Taylor arrastou no chão com um som agudo, metálico. Ele se levantou, lento, deliberado. Seu olhar era um misto de raiva e incredulidade. Catarina prendeu a respiração e Maurício tentou intervir com um “calma, irmão…”, mas Taylor já não ouvia.
— Cuidado com a língua, Leo. — A voz dele agora era pura ameaça. — Porque se você não sabe o que diz, vai aprender do pior jeito.
— Ah, eu sei muito bem o que digo. — Leo apoiou os cotovelos na mesa, a calma dele era a faísca que faltava. — Sabe o que é, Taylor? Esse casamento é um erro. Lila deve ter o direito de escolher com quem vai casar e ela deve saber que tem outras opções.
Lila ficou surpresa com o que Tomas havia falado. Jamais imaginou que o amigo tivesse sentimentos por ela. Mas, ela amava Taylor e era com ele que queria se casar. Antes de dizer alguma coisa, Taylor deu um passo à frente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento Forçado: O Cowboy com quem me casei era Bilionário