Taylor Remington Miller
As luzes da cidade começaram a despontar à frente, tremeluzindo como brasas distantes no horizonte. O som do motor da caminhonete se misturava ao zunido do vento, e, por um instante, aquele ronco constante pareceu ser o único elo entre o que eu sentia e o mundo ao redor.
O Horse & Barrel apareceu à direita, o velho letreiro de neon piscando em vermelho e dourado. Era um bar de madeira escura, impregnado de cheiro de cerveja, fumaça e lembranças que ninguém queria lembrar.
Eu e Maurício descemos da caminhonete e entramos.
O ambiente era morno, abafado, e o som de uma música lenta saía de um rádio velho no canto, misturado às conversas arrastadas dos clientes. O chão rangia sob as botas, e o ar tinha gosto de álcool e passado.
A garçonete nos reconheceu de longe e, sem dizer uma palavra, trouxe duas cervejas geladas. O som das garrafas batendo na mesa fez um eco leve, quase musical. Ela apoiou uma das mãos na cintura e sorriu. Um sorriso meio debochado, meio provocante, daqueles que só quem trabalha a vida inteira entre bêbados e desilusões aprende a usar.
— Olha só quem apareceu... — disse ela, arqueando uma sobrancelha. — Faz tempo que vocês não dão as caras por aqui. Achei que tinham virado santos.
Maurício riu.
— A gente tentou, mas o céu não quis aceitar.
Ela deu uma risadinha curta, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa.
— E você, cowboy? — perguntou, com os olhos brincando entre nós dois. — Tá com cara de quem precisa mais de um psicólogo do que de cerveja.
— Ele precisa é de juízo. — respondeu Maurício, lançando um olhar de canto pra mim.
A garçonete piscou.
— Juízo eu não sirvo, mas cerveja, sim. Querem deixar a conta aberta?
— Pode deixar. — disse Maurício. — E traz uma rodada de amendoim, vai que ajuda o humor dele.
Ela se voltou para mim, com o mesmo sorriso sugestivo.
— A coisa parece séria.
Mas eu não reagi. Nem levantei o olhar. Só fiquei ali, fixo no copo, observando a espuma descer e se desfazer como o resto da minha paciência. O barulho do rádio, as vozes, o riso dela, tudo parecia vir de um lugar distante.
Maurício, percebendo o clima, interveio com leveza:
— Ignora, Stephany. Hoje ele está pagando promessa.
Ela soltou um risinho divertido, apoiando o cotovelo na mesa.
— Promessa ou castigo?
— Um pouco dos dois. — respondeu ele, dando de ombros.
A garçonete balançou a cabeça, brincalhona.
— Bom, se precisar de companhia pra esquecer o motivo da promessa, você sabe onde me achar. — disse, lançando-me um último olhar.
Maurício ergueu a mão e fez um gesto brincalhão.
— Tá dispensada, Stephany. Ele hoje tá em modo “homem das cavernas”.
Ela deu uma risada alta, sincera, e saiu rebolando entre as mesas, levando o som dos saltos pelo chão de madeira gasto.
Maurício se virou pra mim, cruzando os braços.
— Bebe, cowboy. Bebe e depois fala, antes que essa raiva te engasgue de vez.
A primeira desceu amarga, como tudo que eu engolia desde que saí de casa.
A segunda foi mais fácil.
Na terceira, o calor do álcool começou a se espalhar, dissolvendo aos poucos o peso que carregava no peito.
— Sabe o que eu acho? — disse Maurício, apoiando o cotovelo na mesa e me observando com aquele olhar que misturava raiva e compaixão.
— Que eu sou um idiota.
— Também. — Ele soltou uma risada curta. — Mas o que eu ia dizer é que você é apenas temperamental.
Olhei pra ele, girando-o entre meus dedos. Levantei a cabeça e olhei para Stephany que sorriu e caminhou até mim.
— O que deseja cowboy?
— Traz um uísque.
— Quer começar forte, cowboy?
— Só quis ser simpática.
— Simpatia é bom — ele rebateu, educado, mas firme —, mas hoje não é o dia.
A mulher olhou pra mim mais uma vez, como quem tenta medir o estrago, e saiu, balançando o quadril devagar. Maurício riu baixo.
— Você ainda chama atenção até quando tá desabando, impressionante.
— Não quero ninguém. — respondi, rouco. — Só queria que ela…
— Eu sei. — interrompeu, suavizando o tom. — Mas beber até cair não vai fazer a Lila aparecer aqui.
Fiquei quieto.
As vozes ao redor pareciam mais distantes, como se o bar tivesse se transformado num grande eco. O rosto de Lila voltava entre as luzes, cada piscada de néon trazia um pedaço dela.
Perdi a conta de quanto já tinha bebido. Cada dose deixava o corpo mais mole e a mente mais turva. A culpa, no entanto, permanecia nítida. Eu tinha magoado a minha mulher, por causa de um ciúme idiota.
Quando percebi, estava rindo alto de algo que nem lembrava. Maurício me olhava com aquele ar resignado de quem já sabia o final.
— Já chega. — ele repetiu, mais duro. — Vamos embora.
Tentei argumentar, mas o corpo não respondeu. Levantei com esforço, sentindo o chão se mover sob os pés. O bar parecia girar devagar, as luzes piscavam mais fortes, e a música estava alta demais.
— Bora, campeão. — disse Maurício, segurando meu braço antes que eu caísse. — Antes que resolva cantar no balcão.
Saímos e o ar frio da rua bateu no rosto, mas não ajudou muito. A cabeça girava, o mundo oscilava. Cambaleei até a caminhonete, tropeçando no meio-fio.
— Eu tô bem. — murmurei, rindo sem motivo.
— Tá nada. — respondeu Maurício, abrindo a porta. — Anda logo, antes que eu tenha que te carregar.
— Eu só… — tentei dizer, mas a voz falhou. — Eu só queria que ela soubesse que eu…
— Ela sabe, cara. — cortou ele, calmo. — Agora cala a boca e dorme.
Sentei no banco, deixei a cabeça cair contra o encosto. O mundo girava devagar. A última coisa que lembro foi o som do motor ligando e o farol cortando a estrada de volta.
O cheiro de chuva vinha pelo vento, e o gosto de arrependimento queimava mais do que a cerveja. Eu dormi ali, no banco do carona, com a certeza amarga de que tinha perdido a cabeça e quase o amor da minha vida por não conseguir controlar os meus nervos.

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