Por um segundo, o mundo ficou mudo. Não havia chuva, não havia vento, não havia passado, só os olhos dela brilhando como se guardassem um segredo antigo, e minha mão aberta sobre o ventre que, de repente, parecia o lugar mais sagrado do universo. Senti o ar prender na garganta. Um calor estranho subiu do peito para os olhos, e eu, que sempre me achei bom em lidar com potros recém-domados, percebi que não fazia a menor ideia de como segurar aquela avalanche de alegria sem desabar junto.
— Repete — pedi, numa voz que não reconheci. — Lila… repete.
Ela sorriu pequeno, como quem oferece um milagre com cuidado para não espantar, e apertou minha mão contra a pele morna.
— Eu tô grávida, Taylor.
A palavra atravessou meu peito como uma luz. Primeiro veio a surpresa, depois um riso trêmulo, e em seguida… os olhos arderam. Tentei piscar rápido, disfarçar, fazer alguma piada idiota de cowboy. Não deu, a represa abriu. As lágrimas vieram fartas, desajeitadas, sem pedir licença. Eu, um homem feito, alto, forte, acostumado a tempestade no campo e madrugada sem dormir, comecei a chorar como se tivesse oito anos e alguém tivesse me devolvido a parte perdida de mim.
Lila arregalou os olhos, entre assustada e enternecida.
— Ei, cowboy… — ela murmurou, roçando o polegar na minha bochecha molhada. — Tá tudo bem.
Eu ri no meio do choro, daquele jeito feio que mistura soluço com sorriso.
— Não tá “bem”, não. Tá… perfeito. — Respirei fundo, deixando o peito se encher do cheiro dela, do quarto, do agora. — Eu vou ser pai, princesa. Pai. Você tem noção? Porque eu não tenho. Eu achava que tinha, mas não tenho. — Levei a outra mão ao rosto, como quem confere se aquilo era real. — Caramba, eu vou ser pai.
Ela se aproximou, encostou a testa na minha.
— Vai. E vai ser o melhor.
— Eu prometo — falei automático, como juramento antigo. — Eu prometo que vou estar aqui em cada consulta, em cada enjoo, em cada madrugada em que você quiser pão com goiabada e… sardinha? Deus me livre, mas eu trago. Eu prometo aprender a montar berço sem sobrar parafusos, ok, talvez sobrem dois, mas vou chamar o Mauricio para supervisionar, prometo não colocar as botas em cima do tapete do quarto do bebê, prometo… — A voz falhou outra vez. — Prometo amar vocês com tudo o que eu tenho e o que eu ainda nem sei que tenho.
Lila riu baixinho, aquele riso leve que sempre me salva.
— Sardinha com goiabada, não. A gente ainda tem limites — ela respondeu, fingindo seriedade. — Mas eu aceito panqueca às três da manhã.
— Fechado. Panqueca, mel, morango e… — fiz uma careta — talvez um chorinho meu porque vou errar a primeira, a segunda e a terceira.
— Você vai errar algumas mesmo — ela disse, apertando meu nariz de leve. — E eu também. Mas a gente vai acertar juntos. É isso que importa.
Deitei de lado para olhá-la melhor, ainda com a mão espalmada em seu ventre, como se eu pudesse ouvir, de algum jeito, um sussurro novo ali dentro. A chuva lá fora batia suave, diferente de antes, não parecia ameaça, parecia bênção. Uma canção de fundo para a notícia que mudava tudo.
— Sabe o que eu imaginei quando você falou? — perguntei, limpando as últimas lágrimas com o dorso da mão.
— Que eu tinha pregado uma peça em você e era mentira? — Ela ergueu uma sobrancelha, zombeteira.
— Nem ousa. — Ri. — Eu imaginei uma casa grande, mas não daquelas frias, de revista. Uma casa viva. Você na varanda, descalça, brigando comigo porque eu trouxe três cachorros quando a gente combinou “no máximo dois”. E aí um mini você, ou uma mini você, misericórdia, correndo atrás das galinhas, e eu tentando parecer responsável enquanto a gente toma susto com o primeiro tombo e descobre que o joelho ralado é o certificado de infância.
— Uma mini eu? — Lila levou a mão ao peito, teatral. — O mundo não está preparado.
— O mundo que lute. — Sorri, puxando-a um pouco mais para mim. — Eu quero tudo isso. A bagunça, o barulho, a parede riscada, a geladeira com imãs tortos, as fotos da gente com cara de cansados e felizes… com olheiras dignas de um filme de terror, mas sorriso até a orelha. Eu quero cantar parabéns com bolo torto e esquecer a vela. Quero te ver tentando fazer trança e errando; quero aprender a fazer trança com vídeo no celular porque, honestamente, eu já tentei numa corda e deu nó marinho.
Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás.
— Eu pago pra ver você vendo tutorial de trança.

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