Lila Montgomery
O sol já escorria suave pelas frestas da cortina, pintando o quarto com um dourado preguiçoso, daqueles que dá vontade de ficar enrolada nos lençóis pra sempre. O canto dos passarinhos se misturava ao barulho distante do vento entre as árvores, e o cheiro de pão fresco e café subia do andar de baixo, invadindo tudo.
Espreguicei-me, com um sorriso ainda meio sonolento, e o primeiro pensamento que me veio foi o mesmo de todos os dias: Taylor. Toquei o travesseiro ao lado e, claro, estava vazio. Ri sozinha, aquele homem não parava quieto nem dormindo.
Levantei devagar, os pés descalços tocando o chão frio, e procurei uma roupa qualquer. Peguei um short jeans curtinho e, sem pensar duas vezes, a primeira camiseta que encontrei era dele, larga, macia e cheirando a sabonete e a fazenda. Coloquei também um par de meias de bolinha, herdadas de alguma arrumação da Catarina, e fiquei rindo do espelho. Parecia uma mistura de menina e dona de casa, mas eu estava confortável, e era só isso que importava.
A casa estava silenciosa, exceto pelo som de Maria andando pela cozinha e das galinhas lá fora fazendo seu alvoroço diário. Passei os dedos nos cabelos, ainda bagunçados, e caminhei até a varanda.
Catarina estava lá, como sempre, parecendo saída de uma revista rural chique: short de linho, blusa branca, cabelo solto e um copo de suco de laranja na mão. Estava sentada na cadeira de balanço, olhando o horizonte com aquele ar de quem observa tudo e julga metade.
— Bom dia, princesa da fazenda — ela disse, sem tirar os olhos do campo, com um meio sorriso. — Dormiu bem?
— Como uma pedra. — respondi, me aproximando e sentando ao lado dela. — Acho que sonhei a manhã inteira com panquecas e goiabada.
— Grávida sonha com comida, é sinal de que o bebê vai ser forte. — comentou, divertida.
— Ou guloso. — retruquei, rindo. — Onde está o Taylor?
Ela me olhou de lado, estreitando os olhos como quem já sabia onde a conversa ia dar.
— Foi à cidade com o Maurício. Deve estar voltando já.
Fiz uma careta manhosa, apoiando o queixo nas mãos.
— Ah, que pena. Queria ele aqui.
— Olha ela, toda carente — provocou Catarina, rindo. — Daqui a pouco vai querer que ele traga florzinha do campo e cante pra barriga.
Revirei os olhos, mas o sorriso me traiu.
— Não seria má ideia…
Antes que eu pudesse responder, o barulho da porta se abriu atrás de nós, e Maria surgiu triunfante, equilibrando uma bandeja enorme nas mãos.
— Deus me livre dessas meninas passarem fome! — exclamou. — Olha aqui, minha buchudinha, vem comer.
A bandeja estava carregada: suco, pão de queijo, bolo de milho, frutas, queijo fresco e uma tigela de iogurte com mel. Só de olhar, senti o estômago roncar.
— Maria, eu te amo. — declarei, com a voz mais sincera do mundo.
— Eu sei, minha filha, eu sei. — ela respondeu, rindo. — O amor entra pelo estômago.
Catarina gargalhou.
— Principalmente quando o estômago tem um inquilino novo.
Sentei-me à mesa improvisada e comecei a comer como quem não via comida há dias. Maria e Catarina se entreolharam, divertidas, enquanto eu devorava um pão de queijo atrás do outro.
— Credo, Lila, parece o Taylor comendo depois da lida. — comentou Catarina, fingindo choque.
— O bebê pediu. — falei com a boca cheia. — Eu sou só a mensageira.
Maria riu alto.
— Essa desculpa ainda vai render, viu?
Enquanto eu comia, Catarina apoiou o cotovelo no braço da cadeira e me observou com aquele olhar de quem estava prestes a provocar. Eu já conhecia o sinal.
— Me diz uma coisa, cunhadinha… — começou, inocente demais pra ser verdadeira. — Você notou que o Taylor ficou meio preocupado de manhã?
Levantei o olhar, surpresa.
Catarina deu uma gargalhada alta, inclinando-se para frente.
— Eu falei, Lila, se prepare pra morrer na mão.
Eu joguei uma almofada nela, sem sucesso, enquanto as duas caíam na risada.
O riso delas era contagiante, e logo eu também não consegui segurar. O som ecoava pela varanda, misturado ao farfalhar das folhas e ao cheiro de pão de queijo quente.
Mas então, de repente, o som familiar de um motor veio se aproximando. A risada foi se apagando aos poucos quando ouvi o ronco da caminhonete cruzando o portão da fazenda.
Meu coração deu um salto, e o sorriso nasceu antes mesmo que eu percebesse.
— Olha só quem chegou… — disse Catarina, num tom divertido. — O seu cowboy de alma pura e consciência pesada.
Levantei, tentando parecer calma, mas era impossível disfarçar. Senti os olhos brilhando como se acendessem sozinhos.
A caminhonete parou, o som do motor morreu, e por um instante tudo ficou em silêncio. Taylor desceu do carro com aquele jeito que sempre me fazia esquecer qualquer preocupação, o chapéu abaixado, o andar firme, o sorriso preguiçoso que carregava o mundo todo dentro.
Catarina olhou pra mim, sorrindo de canto.
— Lá vem ele, cunhadinha… o homem mais apaixonado e mais medroso dessa fazenda.
Eu apenas ri, o coração batendo rápido.
E quando ele me viu ali, parada na varanda, com o sol batendo no meu rosto e as meias de bolinha expostas, Taylor sorriu daquele jeito que fazia tudo valer a pena.
Naquele instante, nem as provocações, nem o calor, nem a fome importavam mais.
Era só ele, o homem que me olhava como se cada dia fosse o primeiro, e que agora, mais do que nunca, era o centro do meu mundo.

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