A voz de Mariana ainda vibrava em seus ouvidos como um eco que insistia em não se dissipar. Clara caminhava devagar pelo corredor estreito entre os galpões da fazenda, os braços abraçados ao corpo como se pudesse conter o turbilhão dentro do peito. O céu alaranjado do entardecer tingia o horizonte com tons dourados, mas dentro dela tudo era cinza e confuso.
Taylor estava noivo.
Aquela frase martelava em sua cabeça desde o início da tarde, desde que Mariana, com seu jeito expansivo e quase cruel de dar notícias, lhe contara como quem comentava sobre o clima: “O patrão vai casar com uma moça da cidade. Linda, dizem. Fina. Lila, o nome dela. Vieram juntos na última festa da prefeitura. Parece que é coisa séria.”
Clara não respondeu. Apenas continuou recolhendo os ovos da granja com movimentos automáticos, a alma presa em outro tempo, em outro lugar. Ela sabia. Sempre soube que o que sentia era impossível. Que o patrão nunca olharia para ela com os mesmos olhos com que ela o observava, dia após dia, ano após ano, desde aquele outono em que tudo mudou.
Ela tinha dezessete anos na época.
Ainda era só uma menina magra, com sardas espalhadas pelo nariz, os cabelos castanhos sempre presos em duas tranças malfeitas. As roupas largas, os joelhos ralados, as mãos pequenas calejadas do trabalho. A mãe ainda era viva naquela época, trabalhava na lavanderia da casa grande e fazia questão de ensinar a filha a “andar na linha” como dizia. Clara ajudava onde podia: limpava estábulos, recolhia ovos, varria galpões. Cresceu na fazenda, entre cheiro de feno, terra molhada e as histórias contadas à beira do fogão de lenha.
Naquele dia, pediram que ela levasse uma cesta de frutas frescas até o mirante, onde Taylor supervisionava as plantações junto de dois engenheiros. Ela se lembra até hoje do calor daquele fim de tarde, do sol pesado sobre a pele, do suor escorrendo pela nuca e da ansiedade que sentia ao saber que teria que encarar o patrão de perto. Naquela época, Taylor já era o homem que arrancava suspiros das moças da cidade e deixava as filhas dos peões ruborizadas só de vê-lo passar a cavalo.
Ela apressou o passo, a cesta de vime balançando contra a saia puída. Os pés descalços corriam pelo chão de cascalho, e num descuido, uma pedra traiçoeira torceu seu tornozelo com um estalo seco. A dor veio imediata, cortante. A cesta voou longe, frutas rolando entre os arbustos. Clara caiu de joelhos, sentindo a pele raspar contra a terra áspera.
Tentou se levantar, mas não conseguiu apoiar o pé. Uma onda de vergonha subiu como fogo pelo rosto. Estava suja, caída, patética. Quis desaparecer.
— Ei. Você tá bem?
A voz veio como uma lufada morna. Clara ergueu o rosto, os olhos se enchendo de lágrimas — não só pela dor — mas pelo susto de vê-lo tão perto. Era a primeira vez que via Taylor de perto. Os olhos castanhos-claros protegidos pela sombra do chapéu, a barba por fazer, a camisa arregaçada nos braços fortes e bronzeados, o suor descendo pelo pescoço largo.
Ela tentou falar, mas a vergonha colou as palavras na garganta.
Taylor não esperou.
Ajoelhou-se ao lado dela, os dedos ásperos tocando o tornozelo inchado com delicadeza inesperada. Clara estremeceu.
— Tá inchado. Não adianta insistir, você não vai conseguir andar assim.

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