O sol já começava a descer sobre o horizonte da fazenda Remington, tingindo os campos com uma luz dourada que dançava por entre as folhas e pastos. Os cavalos corriam ao longe em um galope calmo, e os funcionários encerravam suas tarefas do dia. O ar tinha aquele cheiro fresco de terra úmida misturado com feno e suor de trabalho bem-feito. No meio de tudo aquilo, montado sobre o seu imponente cavalo preto, Diablo, Taylor Remington Miller se destacava como a figura central da paisagem.
Vestia jeans escuros, camisa azul arregaçada nos antebraços fortes, botas gastas e o inseparável chapéu que sombreava parcialmente o olhar atento. A postura ereta na sela e a facilidade com que guiava o animal mostravam que aquele homem pertencia àquela terra como o céu pertence ao entardecer. Ele supervisionava os arredores, conversava com os peões, analisava cada canto da fazenda como quem cuida do que ama, com disciplina, com firmeza, com respeito.
Na lateral da granja, Clara o observava em silêncio.
Ela estava agachada ao lado das galinhas, recolhendo novamente os ovos em uma cesta de vime ao lado de Mariana. Todos os dias, elas recolhiam os ovos duas vezes ao dia, era uma das atribuições de ambas. As mãos ágeis se moviam no trabalho, mas o olhar, esse escapava constantemente para a figura que cavalgava com elegância a poucos metros dali. Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança mal feita, o rosto levemente suado pelo calor do final de tarde, mas havia nos olhos de Clara um brilho tímido, uma centelha de sentimento que se escondia atrás da simplicidade.
— Clara — chamou Mariana, baixinho, cutucando o braço da amiga — você tá olhando ele de novo.
Clara corou, abaixando a cabeça enquanto ajeitava um ovo na cesta.
— Eu só tava... vendo se ele ia para aquele lado do pasto. Achei que Diablo estava mancando mais cedo.
Mariana sorriu, debochada.
— Ah, claro. Com certeza foi isso. O que você sente por ele já dava pra encher dois celeiros. Só você não vê.
Clara suspirou, sem responder. No fundo, sabia que não era só admiração. Era um desejo contido, uma ternura que crescia em silêncio e que, de vez em quando, escapava pelo olhar.
Taylor aproximou-se dos currais e desmontou com facilidade. Apoiou as rédeas de Diablo em um poste e andou na direção das duas moças.
— Olá novamente, meninas — disse ele, com a voz grave e tranquila, o sotaque sulista carregando as palavras com calor. —Vocês já deviam estar descansando.
Clara engoliu seco.
— Ola, novamente senhor Taylor — respondeu Mariana, sorridente. — e já estamos terminando por aqui.
Clara apenas assentiu, ocupada demais em parecer ocupada com os ovos para encará-lo por muito tempo. Mas sentia o coração acelerar.
Taylor observou a cesta.
— Parece que as galinhas hoje foram generosas.
— É, sim, senhor — respondeu Clara, finalmente levantando os olhos para ele.
Nesse instante, o som de passos surgiu nas costas de Taylor. Era Maurício, o cunhado e melhor amigo de infância. Moreno, falante, com um sorriso fácil e uma energia leve, que contrastava com o jeito reservado de Taylor.
— Rapaz — disse ele, se aproximando —, não cansa nunca? Supervisiona até o canto das galinhas agora?
Taylor riu, apertando a mão do amigo.
— Não confio nem nas galinhas quando o sol começa a baixar. É nessa hora que elas botam ovo demais ou de menos.
Maurício lançou um olhar para as meninas, especialmente para Clara, que baixou os olhos imediatamente.
— Boa tarde, meninas — disse com simpatia. Depois voltou-se para o amigo, com um brilho provocativo nos olhos. — E então? Já escolheu a data do casório? Ou ainda tá tentando fugir do próprio noivado?
Clara sentiu como se o chão afundasse sob seus pés. A palavra "noivado" martelou com força.
Taylor revirou os olhos, retirou o chapéu da cabeça, passou os dedos pelos cabelos loiros e olhou para o horizonte.
— Minha mãe deve estar cuidando dos detalhes. Sinceramente, só vou comparecer.
Maurício gargalhou.
— Vai dar trabalho, hein? Vai ser difícil domar aquela ali.
Decidiu guardar sua inquietação para si. Taylor não era tolo, e se algum dia visse algo em Clara, seria por conta própria. Talvez nunca visse. E talvez fosse melhor assim. Porque, para Maurício, nada seria mais doloroso do que ver Clara se machucar.
Que o coração dela se curasse em silêncio, pensou. Que os sonhos não ditos morressem onde nasceram: nas entrelinhas de olhares tímidos e lembranças de um abraço que nunca foi dado.
— Vamos até o riacho? — perguntou, tentando mudar o rumo da conversa, apontando com a cabeça para a trilha que cortava o campo atrás do celeiro.
Taylor levantou os olhos, ajeitou o chapéu na cabeça e sorriu com aquela expressão de quem não pensava demais antes de agir.
— Vamos — respondeu, batendo de leve no ombro do cunhado antes de seguir em direção ao estábulo onde Diablo o esperava, já inquieto.
Enquanto caminhavam em direção aos cavalos, o vento começou a soprar com mais força, levantando poeira e farfalhando as folhas altas do milharal.
Lá dentro do galpão, atrás de uma pilha de caixas empilhadas, Clara observava os dois homens se afastarem.
Não queria, mas não conseguia evitar.
As mãos apertavam o pano do avental com força, os olhos presos na figura imponente de Taylor montando em Diablo com uma leveza quase poética. O peito dela subia e descia devagar, como se controlasse a própria respiração para não explodir em algo que nem nome tinha.
Um desejo? Uma ilusão? Ou apenas a lembrança persistente do dia em que ele a carregou nos braços, como se ela fosse algo precioso?
— Pare com isso, Clara — pensou. — Você é só a filha de um peão. E ele... ele vai se casar com uma mulher feita de outro mundo.
Mas enquanto os cavalos partiam rumo à trilha, com o sol cortando a silhueta de Taylor no alto da sela, algo dentro dela se recusava a ceder. Algo que teimava em acreditar que, talvez, só talvez...
O destino ainda não tivesse dito a última palavra.
E se, naquela tarde dourada à beira do riacho, não fosse apenas a água que revelasse verdades escondidas... mas também os olhos de um cowboy finalmente despertando para o que sempre esteve diante dele?

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