O silêncio que pairou no escritório foi tão intenso que era possível ouvir o som dos pássaros cantando no jardim.
Lila continuava de pé, imóvel, como se o corpo tivesse se recusado a processar as palavras que acabava de ouvir. O som do tique-taque do relógio antigo pendurado na parede ao fundo parecia martelar dentro de sua cabeça, amplificando o clima sufocante que dominava o ambiente.
Ela piscou devagar, duas vezes, tentando puxar para si alguma réstia de lógica, alguma possibilidade de ter entendido errado.
— O quê? — perguntou com a voz trêmula, mas ainda incrédula, como se aquela palavra solitária pudesse deter o que estava por vir.
Gabriel Montgomery, permanecia impassível, sentado em sua poltrona de couro observando o surto da filha, ele inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços sobre a mesa de mogno, seu rosto foi iluminado parcialmente pela luz do abajur, seus olhos encaravam a filha com uma frieza de quem já havia tomado uma decisão irrevogável.
— Você vai para a fazenda do seu noivo e vai ser amanhã. — repetiu, com a clareza de um juiz proferindo uma sentença de condenação.
As palavras caíram como pedras sobre Lila.
Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu. Seus lábios se moveram em silêncio, como se as palavras tivessem se dissolvido antes de formar sentido.
Seu estômago se revirou violentamente, e o coração acelerou como um cavalo em disparada. Era como se o chão sob seus pés tivesse se aberto em rachaduras invisíveis, sugando-a para um vácuo sem retorno. Suas mãos tremeram, embora ela tentasse escondê-las nas laterais do vestido branco de algodão.
— Pai... você não pode estar falando sério? — murmurou, com a voz ainda embargada e os olhos arregalados de incredulidade.
Gabriel não hesitou. Se acomodou melhor na cadeira e continuou encarando a filha com uma expressão séria e decidida.
— Estou falando muito sério, Lila. E você deveria agradecer por eu estar mantendo a compostura. — Sua voz saiu firme, sem qualquer tremor.
Ela respirou fundo, tentando encontrar alguma fresta de racionalidade naquele caos. Tentou lembrar das palavras certas, das estratégias que sempre usava para dobrar o pai, para suavizar a rigidez da mãe, mas não havia espaço para charme ou persuasão naquele momento. Havia apenas julgamento e condenação.
— Depois da cena que você protagonizou ontem … — continuou ele, sem permitir pausas — na boate mais comentada da cidade, com vídeos viralizando em todas as redes sociais, seu noivo saindo aos socos com um dançarino, gente da imprensa ligando para comentar o “show” da filha do Montgomery... depois de tudo isso, essa é a única solução.
Lila apertou os lábios, prendendo a respiração, como se estivesse à beira de um ataque de pânico.
— Você vai para a fazenda de Taylor. E vai aprender a se comportar como uma mulher de respeito.
Aquela frase pareceu estilhaçar algo dentro dela. As palavras ecoaram por todo o seu corpo, ressoando como um trovão no peito.
— Isso é uma punição? — sussurrou, tentando conter a fúria que borbulhava sob a pele.
— Não. — respondeu Gabriel, com uma serenidade cruel. — É uma responsabilidade. E você vai assumir. Gostando ou não.
Ela virou-se para a mãe como num reflexo. Procurava apoio, uma palavra mais doce, um olhar compreensivo, qualquer coisa. Mas o que encontrou foi uma parede. Isabella estava imóvel, com os braços cruzados sobre o blazer cinza claro, o rosto tão inexpressivo quanto uma estátua de mármore.
— Você passou dos limites! — disse, por fim, com frieza. — Agora vai aprender o que significa lidar com as consequências.
— E quero que esteja pronta. Vestida e com a cabeça no lugar.
As palavras finais foram marteladas.
Vestida, pronta e com a cabeça no lugar.
Lila engoliu o nó que se formava em sua garganta. O gosto amargo da humilhação já começava a subir pela língua.
Não respondeu, não chorou. Apenas ficou em silêncio.
Tudo girava dentro dela. Ela sentia raiva, vergonha, medo, indignação. Mas também… uma centelha confusa de algo que ela não sabia nomear. Uma sensação que se prendia à lembrança do toque de Taylor, do beijo voraz, da fúria contida nos olhos dele quando a viu dançar naquela boate como se não pertencesse a ninguém.
Agora... tudo havia mudado.
Ela não seria mais apenas a garota rebelde, mimada e inconsequente da cidade. A partir de amanhã, ela seria outra coisa, seria uma nova mulher.
Uma mulher que teria que encarar Taylor Remington todos os dias, sob o mesmo teto, com os mesmos olhos que a queimaram no meio da noite. Com as mãos que a seguraram como se fossem feitas para ela. Com os lábios que a marcaram de um jeito que ela ainda não conseguia esquecer.
Amanhã, ela estaria de volta aos braços do cowboy que ela tentou desafiar... e acabou despertando.

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