Taylor riu de leve, com os olhos perdidos no tempo. O riso nasceu pequeno, quase tímido, mas logo ganhou força conforme as lembranças voltavam como um vendaval manso, daquelas brisas que anunciam a chegada de algo mais forte.
— Como esquecer? — murmurou ele, voltando os olhos para o amigo. — Foi num daqueles jantares de família. Acho que era outono, e lá estava ela...
— Ela tinha uns quinze anos? — interrompeu Maurício, arqueando a sobrancelha e dando um gole na cerveja já pela metade.
Taylor assentiu com um leve movimento de cabeça. O olhar, agora mais sombrio e nostálgico, mergulhava fundo na memória.
— Sim. Quinze. Ela sempre teve aquele nariz empinado e sempre teve aquele jeito arrogante, como se tivesse um rei na barriga e mais uns dois príncipes nos bolsos.
Ele fez uma pausa, sorrindo com ternura disfarçada. Seus dedos tamborilaram na mesa de madeira gasta do bar, como se cada toque evocasse um novo pedaço do passado.
— Minha avó sempre dizia que era o seu sonho me ver casado com uma garota como ela. Na época, eu só ria. Achava graça. Ficava de longe apenas observando, fingindo que não estava interessado. Mas ela sempre me intrigou.
Maurício riu.
— E foi nessa noite que ela deu um tapa no moleque, não foi?
Taylor riu também, agora mais abertamente, como se pudesse ouvir novamente o som do estalo ecoando no jardim.
— Sim! Um garoto metido, filho do prefeito, se não me engano, chegou perto dela com aquele jeitinho nojento, tentando bancar o galanteador. Eu fiquei de longe, só olhando, foi quando ele tentou roubar um beijo. E Lila... bom, Lila só virou o rosto, olhou bem nos olhos dele e deu um tapa que até hoje eu tenho certeza que ecoou na alma do coitado.
— Eita.
— O moleque ficou paralisado, com a mão no rosto e os olhos arregalados. E ela? Nem pestanejou. Só ajeitou os cabelos, ergueu o queixo e saiu andando com aquele ar de princesa do Velho Oeste, com a saia balançando e os sapatos pisando firme na grama. Ali, eu percebi que ela era diferente. Que não levava desaforo pra casa. Que não pertencia a ninguém... e talvez foi exatamente isso que me chamou atenção.
Mauricio sorriu ladino e bebeu novamente a sua cerveja.
— Depois, vocês se encontraram novamente naquele evento lá na fazenda. Esse eu me lembro bem, afinal estava lá. O dia em que ela se desequilibrou e acabou caindo de cara na lama! — disse Maurício entre gargalhadas, batendo com a mão na coxa. — Até hoje não sei como aquilo aconteceu.
Taylor segurou o riso, balançando a cabeça, os olhos novamente brilhando com a lembrança.
— Ela ficou furiosa. Levantou coberta de lama, o vestido de grife arruinado, os cabelos sujos e grudados no rosto. Me encarou como se eu fosse o culpado, e eu juro que por um segundo achei que ia levar um tapa na cara.
— Também, Taylor... você virou pra ela e disse: “Gente fina não pisa na terra, escorrega nela.”
— Ué, menti?
— Não. Mas foi pedir pra morrer. — Maurício deu um gole na cerveja, ainda rindo. — Pense numa mulher que fica linda brava?
Taylor soltou um suspiro, como quem se rendia à própria confissão.
— Essa mulher vai me enlouquecer, Maurício.
Silêncio por alguns segundos. Um silêncio confortável, como aqueles que apenas velhos amigos conseguem compartilhar. Taylor encostou-se na cadeira, cruzando os braços atrás da cabeça e olhando para o teto do bar, como se as tábuas antigas projetassem as memórias em um telão invisível.
— Amanhã ela vai começar a colocar a minha vida de cabeça para baixo...
— Talvez você acabe gostando dessa mudança — provocou o cunhado, já sorrindo antes da reação.
Taylor pegou a garrafa, virou o resto da cerveja e soltou o ar pesadamente.
— Você não entende. Eu gosto do silêncio, da liberdade. Gosto de acordar cedo, trabalhar até a noite, tomar banho nu no riacho sem me preocupar se alguém vai me ver. Gosto de dormir sem roupa, de viver sem dar explicações. Não quero ninguém mexendo nas minhas coisas. Muito menos no meu travesseiro.
— Ora, Taylor... vai me dizer que não gosta de dormir ao lado de um corpo quente?
— Geralmente eu não durmo ao lado de um corpo quente, Maurício. Eu passo a noite em claro... por bons motivos.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
Taylor sorriu de canto, mas seu olhar ficou sério por um instante.
— Eu sei que rola uma química entre nós, e não é de agora. Mas química não segura casamento.
Maurício recostou-se na cadeira.
— E quem disse que precisa segurar? Talvez ela não tenha vindo pra te segurar, Taylor. Talvez tenha vindo pra correr ao seu lado.

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