A chuva caía fina e persistente, tamborilando nas abas do chapéu de couro de Taylor Remington enquanto ele atravessava o pasto enlameado a cavalo, praguejando baixo a cada passo que o animal dava entre o barro e os espinhos. Estava encharcado, gelado até os ossos e com o humor pior que touro enfurecido.
— Maldito do Cleberson e aquele cercado podre dele… — resmungou, cuspindo a água da boca. — Da próxima vez, deixo o gado invadir o quintal da casa dele. E quem sabe mijar no sofá também.
Era mais de meia-noite. Ele e Maurício tinham acabado de sair do bar perto da fazenda quando receberam a ligação de um dos peões, os bois do vizinho tinham arrebentado o cercado e invadido as terras dele. Taylor, teimoso como era, mandou Maurício ir dormir e resolveu lidar com tudo sozinho. Montou Diablo, o cavalo negro de confiança, e foi recolher o gado, mesmo com o céu carregado de nuvens.
Agora, debaixo da tempestade que só piorava, praguejava contra o destino, contra o vizinho e, mais do que tudo, contra a irmã. Ah, Catarina! A responsável direta pela próxima bomba que estava prestes a explodir na sua pacífica vida de solteiro.
— Só podia ser ideia dela! Mandar Lila pra cá antes do casamento… Só pode ser um castigo dos céus. — esfregou o rosto molhado. — Aquela mulher é pior do que um touro bravo com espinho na bunda.
Ele estremeceu com um arrepio que subiu pela espinha. A febre já começava a dar os primeiros sinais, e ele sabia que no dia seguinte estaria imprestável. Ainda assim, continuou tocando os últimos bois com um assobio, antes de finalmente trancar o curral e desmontar do cavalo.
Horas depois, já em casa, Taylor despiu-se com pressa. As roupas úmidas da madrugada passada, ainda jogadas ao pé da cama, exalavam o cheiro da terra molhada, do suor, da chuva. Tomou um banho quente, longo, deixando a água escorrer pelos músculos doloridos, tentando afastar o frio que insistia em morar sob a pele. Quando saiu, vestiu apenas uma calça de moletom e deitou-se com um resmungo.
Estava exausto. Mas o sono parecia um animal selvagem: observava de longe, mas não se deixava domar.
Virou de lado. Depois de novo. Os olhos fixos no teto escuro.
A mente? No som do salto alto dela cruzando o assoalho de madeira. No perfume que ficaria impregnado nos travesseiros. Na presença elétrica que tomaria conta da casa.
Lila.
O nome dela parecia ecoar em cada canto do quarto. Em cada batida do peito. Ela vinha com malas. Com promessas. Com sarcasmo e charme. Com tempestades e calmarias. Ela vinha para bagunçar tudo.
E ele, Taylor Remington, o último dos selvagens, estava prestes a ser domado.
Afundou a cabeça no travesseiro, soltando um suspiro resignado.
— Estou fodido — murmurou, como quem sabe que a batalha já estava perdida antes mesmo de começar.
Você acha que ele vai resistir? Ou será que Lila já venceu essa guerra antes mesmo de começar?
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Na manhã seguinte, Taylor estava deitado na cama como se tivesse sido atropelado por um trator. Coberto até o pescoço, o corpo doía como se tivesse passado a noite rolando com touros selvagens. A cabeça latejava, a garganta ardia e, para piorar, o nariz parecia uma torneira quebrada.
Maria, entrou no quarto carregando uma bandeja e fazendo o sinal da cruz ao ver o estado do patrão.
— Santo Deus, senhor Taylor! O senhor está com a cara da morte! — exclamou, colocando a bandeja na mesinha. — Fiz uma canjinha e trouxe água morna para a compressa. Vai aceitar ou vai ser teimoso de novo?
— Maria, mulher… — respondeu com voz rouca. — Já tomei banho gelado. Isso aí abaixa a febre. E não, não estou com a cara da morte… só com o corpo inteiro.
— O senhor precisa de uma esposa! — ela insistiu, colocando a mão na testa dele. — Tem que ter uma mulher para cuidar do senhor. Essa sua mania de independência vai te matar!
— Já falei, dona Maria… eu sou como um pássaro livre. Não nasci pra viver preso numa gaiola. E muito menos com uma onça braba deitada do meu lado.
— Está falando da senhorita Lila, né? — Maria sorriu de canto. — A menina Catarina me mostrou uma foto dela, ela é muito bonita.
— Bonita e braba. Não se iluda Maria, essa mulher vai acabar tocando fogo na fazenda, com os animais e com todos nós dentro.
— Arriégua, senhor Taylor, não seja exagerado.
— Você vai ver que eu tenho razão.
Maria apenas sacudiu a cabeça e saiu do quarto balbuciando algo sobre “homem é tudo igual.”
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— E eu lá sou homem de ter medo de alguma coisa?m
— Ah, qual é, Tay… — Catarina brincou. — No fundo você adora isso tudo. Está doido pra ver a sua mulher usando uma camisola indecente e te deixando louco de tesão.
Taylor desviou o olhar, pegou a caneca de chá e bebeu em silêncio.
— Ela pode ser um pouco… temperamental, mas minha cunhada é uma mulher atraente e com toda certeza vai enlouquecer o juízo de metade dos seus peões.
— Ela mexe comigo mesmo. — disse, por fim, com voz rouca. — Não vou negar. Aquela mulher é um terremoto de saia. Mas, puta que pariu, como ela me tira do eixo!
Catarina sorriu satisfeita.
— E você ama cada segundo disso.
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Do lado de fora, o tempo finalmente começava a abrir. A chuva cessava aos poucos, e os primeiros raios de sol tímidos surgiam no céu cinzento. Era o prenúncio de um novo caos prestes a pousar na fazenda.E esse caos tinha nome e sobrenome.
Ela chegaria ainda naquela tarde.
E, por mais que Taylor resmungasse, bufasse e fingisse estar desesperado com a ideia de dividir a casa com ela, seu coração acelerava de um jeito que ele não conseguia controlar. Só de imaginar o perfume dela invadindo os cômodos, a risada debochada ecoando pela sala, os olhares provocativos durante o café da manhã…
Ele fechou os olhos e sussurrou para si mesmo:
— Onça braba dos infernos… vai me enlouquecer.
Mas no fundo… ele estava contando as horas.

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