Taylor ainda estava parado no meio da cozinha, segurando a caneca de café como se fosse uma granada prestes a explodir. A frase sussurrada por Lila ecoava repetidamente em sua mente: “É melhor você me acordar, cowboy. Ou corre o risco de que eu arranque e jogue fora...”
Por Deus. Ele quase derrubou o café.
Tentou recuperar a compostura enquanto fingia prestar atenção ao bolo de milho no prato, mas era inútil. O cheiro dela ainda estava em suas narinas. O calor do corpo dela ainda estava impregnado em sua pele. E aquela saia curta… Ah, aquela saia era um atentado à paz mundial.
Como se sentisse o drama no ar, Maurício surgiu na porta dos fundos da cozinha.
Com chapéu de cowboy, jeans surrados cobertos de poeira da lida, e um cigarro apagado pendurado no canto da boca, ele parou, olhou a cena, depois para o semblante transtornado do cunhado e suspirou como quem já sabia exatamente o que estava acontecendo.
— Eita, cara… — murmurou, cruzando os braços — De novo não. Tu tá com a cara de quem foi atropelado por um trator… ou por um par de pernas.
Taylor bufou, largando a caneca com mais força do que devia sobre a mesa.
— Acha graça, né?
— Acho. Acho e muito — respondeu Maurício, rindo. — Porque eu avisei. Aliás, eu fui o primeiro a dizer: essa mulher vai te deixar maluco.
— Ela já me deixou, Maurício. Eu acordei com ela em cima de mim, literalmente. A perna dela sobre a minha cintura. O decote da camisola… o perfume no meu pescoço. Porra, eu quase explodi!
Maurício arregalou os olhos, surpreso e maravilhado como se tivesse ganhado ingresso pra primeira fila do circo.
— Espera… ela tava em cima de você?! Isso antes ou depois de dormir?
— Durante. Dormindo. Ou fingindo. Não sei. Mas o efeito foi o mesmo. E o pior… — ele olhou para os lados apenas para garantir que não havia ninguém por perto. — ela colocou a mão dentro da minha calça para dormir.
— O QUE?
— Fala baixo seu idiota.
— O que? Conta isso melhor.
— Além de todo o martírio de ter ela dormindo em cima de mim, eu acordei e ela estava com a mão dentro da minha calça e apertava o meu…
— Não brinca?
— Eu juro. O pior, foi ela acordar e perceber onde apertava.
— O que ela fez?
— Um escândalo e ainda me ameaçou dizendo que se por acaso ela repetisse o gesto, era para eu acordar ela caso contrário ela arrancaria fora.
— ARRIÉGUA!
— Pois é meu caro Maurício, eu estou literalmente fodido.
— Mas me diz uma coisa…. — Mauricio encarou o cunhado nos olhos com um sorriso malicioso. — Mesmo assim o “Diablo” não abaixou a crina, né? — completou o cunhado, rindo alto.
Taylor jogou um guardanapo em cima dele.
— Idiota.
— E tu tá o quê? Apaixonado? — provocou Maurício, puxando uma cadeira e se jogando com a perna sobre o joelho.
— Tô amaldiçoado. Só pode.
Maurício assentiu como quem ouvia uma revelação divina.
— Isso se chama “castigo dos olhos grandes”. Ela vai te virar de cabeça pra baixo, Taylor. E tu vai gostar. Aliás, já tá gostando.
— Eu não gosto de ninguém me controlando.
— Ah, não? E por que não tirou ela da cama? Hein? Por que não deu um chega pra lá?
Silêncio.
Taylor olhou para o chão por alguns segundos, os pensamentos girando como redemoinhos sob aquele céu vasto e sem nuvens. As mãos no bolso da calça, o queixo tenso. Era raro vê-lo assim: calado, pensativo, vulnerável.
Maurício se levantou, deu dois tapinhas no ombro do cunhado e disse com um meio sorriso:
— Deixa eu te dar o melhor conselho de todos, vindo de alguém que já passou pelo que você está passando agora. Se ela mexe contigo desse jeito… é porque vale o risco. Só não deixa pra descobrir isso tarde demais.
Taylor o olhou, com os olhos um pouco mais sérios.
— Tu acha mesmo que ela pode ser…?
Maurício deu de ombros, mas o sorriso no canto da boca tinha peso.
— A mulher certa? Não sei. Mas que ela é a errada mais certa que já passou por aqui… isso é.
Os dois caíram na risada, mas o som teve um quê de nervosismo. Como se rissem para não encarar o que já sabiam.
Taylor olhou novamente para o quintal e Lila ainda estava ali, ao lado da sua irmã e agora ela ria de alguma coisa que Catarina contava. Ele engoliu em seco, apertando o maxilar.
Maurício o seguiu com os olhos e murmurou, com aquela malícia típica de quem conhece o jogo:
— Pois é, cowboy… parece que tua mula empacou. E dessa vez, vai ser ela quem decide se você volta chorando… ou se vai ficar.
Taylor ficou parado ali, sem responder. Só olhando.
Mas dentro dele, uma decisão já começava a tomar forma.
E quando um Remington decide o mundo ao redor nunca mais é o mesmo.

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