A porta da casa rangeu suavemente quando Catarina a empurrou com familiaridade. O cheiro acolhedor que escapou dali foi como um abraço invisível. Uma mistura de café fresco, canela, broa de milho recém-saída do forno e… lavanda. Tudo impregnado nos móveis antigos, nas cortinas de renda e nas paredes pintadas de branco-gelo.
No instante seguinte, um vulto surgiu da cozinha, limpando as mãos em um pano florido amarrado na cintura.
— Catarina, minha flor! — exclamou Dona Severina, abrindo os braços com o mesmo entusiasmo de quem vê uma filha voltar de viagem.
Severina era uma mulher de estatura baixa, mas com uma presença que preenchia o cômodo inteiro. Os cabelos, presos num coque despenteado, tinham mechas grisalhas assumidas com orgulho. Vestia um vestido simples, estampado de florzinhas lilases, e usava chinelos que batiam no chão com aquele som familiar de casa de vó.
— E essa moça linda é quem eu estou pensando?
— Essa aqui é a Lila, minha sogra. A noiva do seu patrão rabugento.
— A sua casa é linda. — acrescentou Lila, estendendo a mão com um sorriso gentil no rosto.
Mas Dona Severina não era mulher de formalidades. Ignorando a mão estendida, envolveu Lila num abraço apertado, esfregando as costas dela com força.
— Ora essa! Eu não dou a mão pra mulher bonita, dou abraço mesmo! Seja muito bem-vinda, minha filha. Minha patroinha faz parte da família.
Lila sorriu, ligeiramente surpresa com tanto calor humano de uma vez.
— Obrigada… Dona Severina…
— Me chame de Severina. Ou de “tia”, se preferir. Só não me apareça com esse negócio de “senhora” que me dá coceira!
As três riram.
— Sente-se um pouquinho, menina. Acabei de tirar umas broas de milho do forno e já tô passando um cafezinho na hora, que é pra deixar a visita mais animada.
Severina desapareceu por um instante e, logo depois, a cozinha foi invadida pelo tilintar de xícaras, o aroma rico de café coado na hora e o som suave da colher mexendo o açúcar em ritmo de canção. Lila olhava ao redor, encantada com a simplicidade daquele lar. Cada detalhe parecia contar uma história. Os paninhos de crochê sobre os móveis, a foto de Maurício criança em cima da geladeira, o rádio antigo no canto que sussurrava uma moda de viola.
Poucos minutos depois, Severina surgiu com uma bandeja repleta de delícias, uma jarra de café fumegante, um pratinho com fatias generosas de broa de milho douradas e crocantes, pedaços de queijo e um potinho de doce de leite artesanal.
— Pronto! Agora sim, vamos conversar como gente decente. — disse ela, servindo Lila primeiro, como manda o costume.
Lila mordeu a broa, e quando sentiu o gosto delicioso do milho em sua boca, seus olhos se fecharam brevemente.
— Nossa… isso aqui é um pedaço do céu.
— Receita da minha avó. Faço com fubá da fazenda, ovo de galinha feliz e amor de sobra. — respondeu Severina, com um brilho nos olhos. — Agora me diga… como tá sendo a convivência com o meu filho postiço?
— Taylor? — Lila perguntou, fazendo-se de desentendida, já antevendo o tom da conversa.
— O próprio! Aquele traste lindo, marrento e com a boca maior que a cabeça! — Severina respondeu, divertida. — Olha, minha filha, se você aguentar aquele menino, pode casar com ele e ainda ganhar medalha.
Catarina riu alto.
Lila girava lentamente a alça da xícara de café entre os dedos enquanto ouvia Dona Severina falar. O aroma das broas de milho ainda pairava no ar, misturado ao perfume adocicado de flores que entrava pela janela aberta da cozinha. A manhã seguia preguiçosa, mas o riso das mulheres preenchia a casa com vida.
Catarina já estava recostada na cadeira, os cabelos presos num coque frouxo e as mãos no colo, sorrindo enquanto Severina, sentada de frente para as duas, tomava mais um gole de café antes de iniciar uma nova história, uma daquelas que já vinha com cheiro de passado e saudade.
— Ah, minha filha… agora que você tá prestes a entrar nessa família, deixa eu te contar como tudo começou por aqui. — disse Severina, ajeitando o avental. — Quando o patrão apareceu dizendo que queria comprar essa fazenda, eu achei que ele estava maluco. Jovem, bonito, estudado, com o mundo aos pés… e me aparece dizendo que queria virar patrão de terra e gado.
Catarina arqueou a sobrancelha.
— Ele nunca contou isso pra gente.
— Pois é, ele não gosta de alardear o que faz de coração. — Severina respondeu, sorrindo. — Ele apareceu com a chave da sede na mão e disse que queria recomeçar. Que tinha cansado da cidade, do barulho, da vida corrida. Disse que queria plantar raízes onde pudesse ver o céu sem prédios tapando a vista.
Lila abaixou o olhar, tocada. Aquela imagem do Taylor determinado, mas silencioso, começava a se formar com nitidez em sua mente.
— No primeiro mês, ele foi de casa em casa. Conversou com cada um dos moradores que trabalhavam nas terras, ofereceu contrato justo, aumentou os salários e disse que queria todos ali. Que ninguém ia perder o emprego. E que enquanto ele estivesse vivo, aquelas terras seriam divididas com quem plantasse junto.
— Ele fez isso mesmo? — Lila perguntou, surpresa.
— Fez. — confirmou Severina com orgulho. — O povo ficou encantado. Era um menino novo, com modos retos, mas com olhar de homem cansado da cidade. Ganhou todo mundo, não pelo dinheiro, mas pela forma como tratava a gente. Chamava os mais velhos de “senhor”, ajudava a carregar saco de ração, comia no refeitório com os peões. Nunca olhou ninguém de cima pra baixo.
Lila ouvia tudo com um sorriso nos lábios, discreto, mas constante. Aquilo não era o tipo de coisa que se via num perfil de rede social, nem no jeito rude que ele usava para se proteger. Era raiz, era alma. E ela, sem querer, estava cavando fundo no coração daquele homem.
— Agora… — Severina disse, com os olhos brilhando de diversão. — Se tem uma coisa que ele causou por aqui… foi confusão no coração das meninotas!
Severina observou a reação com olhos experientes. E, depois de uma pausa, falou com doçura e firmeza e a voz levemente embargada pela sabedoria da vida:
— Olha, minha filha… Taylor é feito de rocha. Por fora é duro, frio e cheio de pontas. Mas por dentro… tem calor, tem vida, tem coisa boa. Só que ele não sabe lidar com o que sente. Nunca soube. E por isso, às vezes, age como se tivesse que se defender o tempo todo.
Lila ergueu os olhos, encontrando o olhar sereno da senhora, mas não disse nada. Havia algo naquele silêncio entre elas que dispensava explicações, como se ambas soubessem, em alguma camada do instinto feminino, que certos sentimentos não precisam de nome para serem reais.
Dona Severina sorriu, apertando levemente a mão de Lila, como quem sela um pacto antigo, passado de mulher para mulher.
— Tenha paciência, minha filha. Porque domar um touro bravo não se faz com corda curta nem com grito. Isso só assusta. Um bicho assim se doma com tempo, com silêncio... e com amor. Mas não qualquer amor. Tem que ser um amor que não desiste na primeira topada.
Lila respirou fundo. Aquelas palavras mergulharam fundo no peito, como um peso e um alívio ao mesmo tempo. Um lembrete de que ela não precisava vencer Taylor, apenas permanecer.
Severina desviou o olhar por um instante, como se recordasse algo lá do passado. Depois voltou a encará-la com firmeza e um brilho astuto nos olhos, daquele tipo que só as mulheres vividas têm.
— E mais… — disse, com a voz mais baixa, quase como um segredo. — Um touro bravo não precisa só de alguém que o ame. Precisa de uma mulher que o desafie. Que o confronte. Que o encare nos olhos quando ele empacar. Que saiba quando recuar… e quando segurar firme pela crina.
Fez uma pausa.
— Talvez… essa mulher já esteja perto demais pra ele perceber.
Lila sentiu o coração bater mais forte.
Ficou em silêncio, encarando Dona Severina como quem tenta absorver cada palavra como um presságio. O vento passou por entre as frestas da janela, bagunçando levemente os fios soltos do seu cabelo. Um arrepio subiu-lhe pela espinha, mas ela não soube dizer se era frio… ou pressentimento.
Do lado de fora, o som de cascos sobre o cascalho ecoou no chão do terreiro. Lila virou o rosto lentamente, guiada por uma intuição quase inquieta.
Era ele.
Montado em Diablo, com o chapéu na cabeça e a silhueta recortada contra o sol do final da tarde.
O touro bravo havia vindo.
E talvez… já fosse tarde demais pra fingir que ela não o estava domando sem nem perceber.

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