O amanhecer chegou como quem lambe a beirada do mundo: devagar, tingindo de cobre as copas das árvores e prateando os telhados ainda úmidos da garoa da madrugada. A fazenda respirava em silêncio. Só se ouvia o estalar tardio da lenha morrendo dentro da lareira da sala e, lá fora, o rumor distante do curral, um mugido espaçado, o farfalhar do capim, o arrastar de botas de algum peão madrugador.
Mas para Taylor, o dia começou muito antes.
Ainda no meio da madrugada, quando o calor do corpo de Lila sobre o seu ameaçava dissolver o pouco autocontrole que lhe restava, ele se obrigou a se afastar. Com cuidado, para não acordá-la, deslizou as mãos da cintura dela e levantou-se, sentindo o corpo protestar com a ausência do contato. Ficou parado por alguns segundos ao lado da cama, respirando fundo, como se cada inspiração fosse um lembrete de que precisava manter a cabeça no lugar. Lila estava deitada no quarto de Catarina, ainda adormecida, seu rosto parcialmente coberto pelos cabelos bagunçados, e sua respiração calma…
Por um momento, Taylor fechou os olhos e lembrou de como ela gozou no seu colo e de como ele se segurou para manter o controle. Taylor sabia que se permanecesse ao lado dela, não resistiria.
Saiu sem acender a luz, fechou a porta atrás de si e cruzou o corredor no escuro, até alcançar o próprio quarto. O silêncio da casa parecia mais pesado naquela hora, quase cúmplice. Antes de deitar, tirou a roupa e foi ao banheiro, precisava se aliviar, caso contrário iria enlouquecer. Desde que esse noivado ficou oficial, Taylor não sentia o calor do corpo de uma mulher e dormir ao lado de Lila estava ficando cada vez mais insuportável.
Depois do banho e do alívio, deitou-se na cama grande, mas não dormiu de imediato. O cheiro dela ainda estava impregnado na sua pele, e a lembrança dos movimentos da noite anterior voltaram com tudo, deixando-o inquieto. Passou longos minutos encarando o teto, tentando convencer o corpo a descansar.
Quando finalmente o galo cantou, já era quase amanhecer e ele não tinha dormido direito. O corpo ainda parecia uma corda esticada. Ficou por um instante deitado olhando o forro de madeira, sentindo no peito o peso exato da lembrança da noite passada, como se ela tivesse gravado nele a topografia de um território proibido. Então jogou as pernas para fora da cama, esfregou o rosto com força, resmungou um “eu tô ferrado” que morreu no travesseiro e se levantou.
Vestiu a calça jeans surrada, a camisa de algodão grafite, e enfiou os pés nas botas. Lavou o rosto, passou água fria na nuca para ver se o sangue se aquietava. Saiu do quarto e caminhou até a cozinha, abrindo a janela, deixando a manhã entrar em fatias de luz, junto com o cheiro de café que Maria deixou pronto na garrafa térmica.
Serviu-se de uma lapada de cachaça, bebeu um gole grande e fez careta, apreciando a bebida forte, do jeito que ele gostava. Pegou duas fatias de pão, passou manteiga de lata e sentiu o ranger da crosta sob a faca. Mastigou sem pressa, como se mastigar fosse pôr ordem ao que sentia por dentro.
Ouviu passos no corredor, e pelo horário, sabia muito bem de quem se tratava.
— Bom dia, cunhado. — Ele se recostou no batente, cruzando os braços. — Ou deveria dizer… “boa madrugada mal dormida”?
Taylor franziu um olho, desconfiado.
— Onde está a minha irmã?
— Dormindo. — Maurício avançou, pegou a caneca sobressalente, encheu de café e tomou um gole com um assobio. — acho que ela bebeu um pouco além da conta ontem. — falou corando. — E você, teve que carregar a onça braba nos braços?
Taylor pigarreou. A lembrança logo invadiu sua mente com uma velocidade de um tsunami. O corpo leve de Lila nos braços, o cheiro de banho e cachaça, os cabelos soltos roçando no ombro dele… Espantou a imagem com um gesto quase físico, como quem espanta mosca e disse:
— Bora pra cidade. — decretou, ignorando a provocação. — A caminhonete já tá lá fora. Preciso resolver o negócio das estacas, encomendar telha para cobertura do galpão e pegar os medicamentos do lote novo. E você… você vai comigo pra carregar o que eu mandar, que eu não sou de ferro.
Maurício sorriu daquele jeito de menino travesso encarnado num homem feito.
— Sim, senhor Ogro.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento Forçado: O Cowboy com quem me casei era Bilionário