Taylor suspirou, como quem puxa a corda de um poço.
— Ela estava bêbada. A cachaça da tua mãe é um atentado à ordem pública.
— Já vou transmitir o elogio — disse Maurício, orgulhoso.
— A Catarina fez aquela zona, você pegou ela no colo e levou pro quarto. Eu fiquei pra apagar a lareira e recolher as coisas. Lila ficou no sofá… quase dormindo. Eu levei ela pro quarto de Catarina. Ela me chamou de ogro… atraente.
— Ogro atraente?
— Sim.
— E…?
— E ela pediu pra eu deitar junto. — Taylor passou a mão na nuca, desconfortável e… no fundo, aceso. — Eu disse que não. Ela disse que me chamou de chato, puxou meu braço. Eu sentei. Aí… — ele procurou palavras que não fossem uma confissão gráfica — a situação ficou… difícil.
Maurício fez um som de “hum-hum” muito mais comprido do que o necessário.
— Difícil tipo “conversa cabeça” ou difícil tipo “Deus, dai-me forças”?
— A segunda opção. — Taylor mordeu a ponta do dedo, pensativo. — Ela começou a me provocar. Não tô falando de coisinha boba. Provocar mesmo. Olho no olho. Mão… — ele limpou a garganta — mão passeando como se fosse dona do mapa.
— Irmão, você sabe que eu te respeito, né? — Maurício apontou para a própria cara. — Mas eu vou ter que rir.
— Vai rindo. No fim da história você vai chorar por mim.
— Sinal que terminou ruim?
— Depende do ponto de vista. — Ele encarou a linha do horizonte. — Eu segurei. Até onde deu. Aí ela pediu. Não sei te explicar. Não foi “vem cá, cowboy”. Foi… “eu preciso”. E eu… eu perdi a linha por uns segundos. Eu a beijei forte. E guiei o… ritmo. Sem… você sabe.
Maurício levantou ambas as mãos, rendido.
— Olha, eu não preciso das imagens mentais, mas te agradeço pelo cuidado editorial. — Ele respirou fundo. — E ela?
— Ela… — Taylor engoliu. Uma imagem veio como uma pedrada doce: a testa dela encostada na dele, a respiração curta, o corpo tremendo de prazer contido. — Ela terminou. Em cima de mim. E dormiu.
Silêncio. Depois, um assovio baixo de Maurício, quase respeitoso.
— E você ficou com cara de pamonha olhando pro teto.
— Mais ou menos isso. — Taylor deu um risinho curto e sem humor. — A calça virou instrumento de tortura medieval.
Maurício deu uma palmada no painel, gargalhando.
— Eu sabia! Eu sabia que você era humano. Cannes vai te ligar pra filmar “O Sofrimento do Cowboy Casto”.
— Vai tomar banho, Maurício.
— Banho frio, no caso. — Ele piscou. — Tá, mas você segurou. Eu tô orgulhoso. Catarina vai querer te dar uma medalha da ONU. Lila estava bêbada. A gente brinca, mas… você fez o certo.
Taylor ficou quieto. As mãos no volante estavam firmes, mas menos tensas. O asfalto correu sob os pneus, a cidade apareceu ao longe, um agrupamento de telhados, uma torre de igreja, a fumaça da padaria se anunciando antes do letreiro.
— Eu fiz o certo. — repetiu, como quem precisa ouvir de si mesmo. — Mas Deus do céu… não sei quantas vezes mais eu consigo fazer o certo.
— Bem-vindo ao clube dos mortais. — Maurício esticou as pernas. — Escuta… e ela? De dia, vai fingir que nada aconteceu? Ou vai cruzar no corredor e te chamar de ogro com um sorriso diferente?
— Não sei. — Taylor deu de ombros. — Lila é duas pessoas. Uma que te desarma com ironia e uma que te olha como se quisesse morder. Eu fico no meio, esperando um laço na cabeça.
— Você gosta dela.
— Eu gosto de pouca gente. — Ele desviou o olhar do horizonte por um segundo para o próprio pulso, onde uma veia saltava ainda rápida. — Mas da Lila eu gosto de um jeito que me irrita.
— Amor é isso aí. Irritação com vontade de repetir.
Taylor soltou um “tsc” que era quase um riso. Estacionou em vaga livre na rua lateral da praça. O relógio da igreja batia sete e vinte. A padaria, Rodrigues & Filhos, já fervilhava. Um ônibus de linha passava devagar, cuspindo gente sonolenta com mochilas nas costas.
— Dois pães na chapa, dois pingados, dois pão com ovo, um pão doce e um sonho pra viagem — Maurício recitou, já descendo da caminhonete.
— Você tem um buraco negro no estômago?
— Chama metabolismo de peão feliz.
Entraram na padaria e foram abraçados pelo cheiro amanteigado das fornadas novas. O balcão exibiu sonhos polvilhados, broas de milho, uma fila de pães italianos tigrados com vapor ainda saindo. O barulho era de louças batendo, pedidos, rádio velho com notícias de plantio e previsão de chuva.

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