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Casamento Forçado: O Cowboy com quem me casei era Bilionário romance Capítulo 70

Taylor suspirou, como quem puxa a corda de um poço.

— Ela estava bêbada. A cachaça da tua mãe é um atentado à ordem pública.

— Já vou transmitir o elogio — disse Maurício, orgulhoso.

— A Catarina fez aquela zona, você pegou ela no colo e levou pro quarto. Eu fiquei pra apagar a lareira e recolher as coisas. Lila ficou no sofá… quase dormindo. Eu levei ela pro quarto de Catarina. Ela me chamou de ogro… atraente.

— Ogro atraente?

— Sim.

— E…?

— E ela pediu pra eu deitar junto. — Taylor passou a mão na nuca, desconfortável e… no fundo, aceso. — Eu disse que não. Ela disse que me chamou de chato, puxou meu braço. Eu sentei. Aí… — ele procurou palavras que não fossem uma confissão gráfica — a situação ficou… difícil.

Maurício fez um som de “hum-hum” muito mais comprido do que o necessário.

— Difícil tipo “conversa cabeça” ou difícil tipo “Deus, dai-me forças”?

— A segunda opção. — Taylor mordeu a ponta do dedo, pensativo. — Ela começou a me provocar. Não tô falando de coisinha boba. Provocar mesmo. Olho no olho. Mão… — ele limpou a garganta — mão passeando como se fosse dona do mapa.

— Irmão, você sabe que eu te respeito, né? — Maurício apontou para a própria cara. — Mas eu vou ter que rir.

— Vai rindo. No fim da história você vai chorar por mim.

— Sinal que terminou ruim?

— Depende do ponto de vista. — Ele encarou a linha do horizonte. — Eu segurei. Até onde deu. Aí ela pediu. Não sei te explicar. Não foi “vem cá, cowboy”. Foi… “eu preciso”. E eu… eu perdi a linha por uns segundos. Eu a beijei forte. E guiei o… ritmo. Sem… você sabe.

Maurício levantou ambas as mãos, rendido.

— Olha, eu não preciso das imagens mentais, mas te agradeço pelo cuidado editorial. — Ele respirou fundo. — E ela?

— Ela… — Taylor engoliu. Uma imagem veio como uma pedrada doce: a testa dela encostada na dele, a respiração curta, o corpo tremendo de prazer contido. — Ela terminou. Em cima de mim. E dormiu.

Silêncio. Depois, um assovio baixo de Maurício, quase respeitoso.

— E você ficou com cara de pamonha olhando pro teto.

— Mais ou menos isso. — Taylor deu um risinho curto e sem humor. — A calça virou instrumento de tortura medieval.

Maurício deu uma palmada no painel, gargalhando.

— Eu sabia! Eu sabia que você era humano. Cannes vai te ligar pra filmar “O Sofrimento do Cowboy Casto”.

— Vai tomar banho, Maurício.

— Banho frio, no caso. — Ele piscou. — Tá, mas você segurou. Eu tô orgulhoso. Catarina vai querer te dar uma medalha da ONU. Lila estava bêbada. A gente brinca, mas… você fez o certo.

Taylor ficou quieto. As mãos no volante estavam firmes, mas menos tensas. O asfalto correu sob os pneus, a cidade apareceu ao longe, um agrupamento de telhados, uma torre de igreja, a fumaça da padaria se anunciando antes do letreiro.

— Eu fiz o certo. — repetiu, como quem precisa ouvir de si mesmo. — Mas Deus do céu… não sei quantas vezes mais eu consigo fazer o certo.

— Bem-vindo ao clube dos mortais. — Maurício esticou as pernas. — Escuta… e ela? De dia, vai fingir que nada aconteceu? Ou vai cruzar no corredor e te chamar de ogro com um sorriso diferente?

— Não sei. — Taylor deu de ombros. — Lila é duas pessoas. Uma que te desarma com ironia e uma que te olha como se quisesse morder. Eu fico no meio, esperando um laço na cabeça.

— Você gosta dela.

— Eu gosto de pouca gente. — Ele desviou o olhar do horizonte por um segundo para o próprio pulso, onde uma veia saltava ainda rápida. — Mas da Lila eu gosto de um jeito que me irrita.

— Amor é isso aí. Irritação com vontade de repetir.

Taylor soltou um “tsc” que era quase um riso. Estacionou em vaga livre na rua lateral da praça. O relógio da igreja batia sete e vinte. A padaria, Rodrigues & Filhos, já fervilhava. Um ônibus de linha passava devagar, cuspindo gente sonolenta com mochilas nas costas.

— Dois pães na chapa, dois pingados, dois pão com ovo, um pão doce e um sonho pra viagem — Maurício recitou, já descendo da caminhonete.

— Você tem um buraco negro no estômago?

— Chama metabolismo de peão feliz.

Entraram na padaria e foram abraçados pelo cheiro amanteigado das fornadas novas. O balcão exibiu sonhos polvilhados, broas de milho, uma fila de pães italianos tigrados com vapor ainda saindo. O barulho era de louças batendo, pedidos, rádio velho com notícias de plantio e previsão de chuva.

Na saída do banco, onde Taylor foi acertar folha de pagamento da peonada, os dois sentaram no meio-fio por um minuto, dividindo o tal sonho prometido. O açúcar de confeiteiro sujou o rosto de ambos e os fez rir sem motivo. Crianças passaram correndo com mochilas, uma senhora passou cumprimentando os dois.

— Sabe o que eu tô pensando? — Maurício disse, olhando para o movimento da praça.

— Que o sonho valia dois?

— Também. Mas eu tô pensando que a gente precisa parar de tratar o destino como boi brabo. Às vezes o bicho só quer água e sombra.

— Traduz.

— Lila. Você. — Maurício apontou o queixo para a torre da igreja, como quem diz “Deus está vendo”. — Você se fecha como uma cerca mal esticada. E ela… ela morde como potra recém-domada. Tem um meio-termo. É conversa, Taylor. É o tal do “eu gostei, mas me assustei”. “Eu quero, mas temos que achar um jeito”. Coisa de adulto, entende?

Taylor ficou olhando para as próprias mãos. Eram mãos que sabiam segurar coisas difíceis: arreios, ferramentas, a vida. Mas quando se tratava de segurar o invisível, elas pareciam desajeitadas.

— Olha daqui a quatro meses vocês vão se casar e por mais que tudo isso seja apenas um “contrato” todo mundo vê que rola uma química entre vocês dois. O problema é que os dois são cabeças duras demais para admitir.

Taylor respirou fundo. O medo e a vontade eram dois cavalos emparelhados puxando a mesma carroça.

— E você, conselheiro amoroso, vai casar quando?

— Quando minha louca disser “agora”. — Maurício sorriu de canto. — Até lá eu treino: carrego bêbada no colo, faço chá, tiro cachaça do alcance, e ganho crédito com o céu.

— Você é boa gente, Maurício.

— Eu sou apaixonado. Isso deixa a gente melhor.

Ficaram ali mais um tempo soprando açúcar do dedo indicador como se fosse poeira mágica. O cachorro de rua levantou, espreguiçou e veio cheirar os cadarços de Maurício, que coçou a orelha dele em troca.

— Vamos? — Taylor se levantou, estalando as costas.

— Partiu. Ainda temos que passar na oficina do Tonhão. O barulho da tua frente tá me irritando desde junho.

— É tua cara arrastando no banco que faz barulho.

— Inveja é feio.

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