A luz do sol invadia o quarto pelas frestas da janela, projetando faixas douradas sobre o chão de madeira e sobre a colcha clara da cama. O cheiro do campo, uma mistura de terra molhada, lenha queimada e grama fresca, se misturava ao ar levemente frio da manhã, como um convite preguiçoso para o novo dia.
Lila despertou devagar.
Primeiro veio a pulsação latejante nas têmporas, depois o peso na testa e a sensação de boca seca como papel. Gemeu, tentando abrir os olhos, mas a luz parecia intensa demais, agressiva demais. Afundou o rosto no travesseiro e respirou fundo, buscando ar.
O mundo girava levemente. Uma ressaca infernal fazia seu corpo protestar por cada gole da maldita cachaça artesanal de Dona Severina que ousou beber na noite anterior.
— O que diabos eu fiz ontem? — murmurou com a voz rouca, estranhamente delicada.
Tentou sentar na cama com cuidado, sentindo a cabeça pesada, o estômago sensível. As mãos apertaram os lençóis como se o tecido pudesse conter a vertigem. Olhou em volta devagar.
O quarto estava em silêncio. As cortinas dançavam suavemente com o vento. A lareira estava apagada, apenas com restos de cinza no fundo. O cobertor sobre seus ombros escorregava devagar, revelando sua camisa larga de mangas compridas, ainda com um leve perfume masculino no colarinho.
Mas ela estava sozinha e não estava no seu quarto.
E isso… era estranho.
Lila franziu o cenho, tentando reorganizar as memórias da noite anterior, como se procurasse fragmentos num quebra-cabeça espalhado pelo chão.
Lembrava da sala. Da lareira. Das risadas com Catarina. Da cachaça queimando a garganta. Da conversa sobre... sei lá o quê.
Depois…
Uma lembrança vaga de Taylor a carregando no colo.
Sim. Ela lembrava da força dos braços dele ao redor do seu corpo, o som do passo dele firme no chão de madeira, o calor do peito dele contra seu rosto. E depois… do quarto.
Mais do que isso… ficava nebuloso.
Sentiu o rosto esquentar. Era como se seu corpo lembrasse de algo que sua mente ainda não conseguia acessar.
— Ai, meu Deus… — sussurrou, levando a mão à testa. — Eu fiz alguma besteira?
Levantou-se devagar, os pés descalços tocando o chão frio. Cambaleou até a janela e olhou lá fora. A fazenda estava viva, como sempre. Galo cantando ao longe. Som de balde batendo em tábua. Vozerio abafado de algum peão dando ordens.
Mas nenhum sinal de Taylor.
Ela passou a mão pelos cabelos desgrenhados, tentando ignorar o nó que se formava no peito. Aquilo era ridículo. Talvez ele tivesse apenas acordado mais cedo. Talvez tivesse ido cuidar dos cavalos. Talvez…
Talvez nada.
Por que ela se sentia tão… vazia?
E por que, mesmo sem se lembrar de tudo, tinha a estranha sensação de que algo tinha acontecido? Algo importante. Algo quente. Algo… íntimo.
Lila sentou-se de novo na beira da cama, olhando para a porta como se esperasse que ele surgisse ali a qualquer momento, com aquela cara cínica e aquele jeito de quem finge que não sente nada.
Mas a porta permaneceu fechada.
E o silêncio… parecia um aviso.
Lila congelou por um segundo.
Taylor.
Aquele nome, jogado no ar como se não tivesse peso, causou nela uma reação visceral. A lembrança do calor dos braços dele, o perfume de terra e sabão, o toque das mãos firmes em sua cintura, o gemido que ela havia soltado contra o pescoço dele… flashes embaralhados, pedaços de uma noite que seu corpo lembrava melhor do que sua mente.
Lila apenas assentiu, tentando esconder o leve desconforto que se instalava em seu peito. Um incômodo pequeno, mas persistente. Por que ele saiu sem ao menos vê-la? Nem um bilhete? Nenhuma palavra?
Será que… que ela tinha feito alguma bobagem?
Passou o dia inteiro inquieta.
Tentou ajudar Maria na cozinha, mas derrubou a tigela de farinha. Foi arrumar os armários, mas ficou cinco minutos parada encarando uma travessa de vidro como se fosse uma esfinge egípcia. Tentou ler um livro na varanda, mas não passou da segunda página.
O tempo se arrastava e Taylor não voltava.
À medida que o sol ia se abaixando no céu, tingindo a paisagem de dourado e rosa, Lila caminhava de um lado para o outro, com os braços cruzados e o coração apertado. Já havia trocado de roupa, vestia agora uma calça de algodão cinza e uma blusa larga, mas mesmo assim não conseguia se sentir confortável.
Estava sentada na varanda, conversando com Catarina, ou melhor, fingindo que ouvia o que a cunhada estava falando. Até que ouviu o som familiar de pneus sobre o cascalho do terreiro.
Seu coração deu um salto. Esperava vê-lo descer sozinho do carro, talvez com a camisa arregaçada, o rosto suado e aquela expressão de quem evita olhares. Estava pronta para confrontá-lo, para procurar saber o que de fato havia acontecido ontem a noite.
Mas então a porta do carro se abriu… e outra pessoa desceu primeiro.

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