O ar dentro da casa estava morno, denso, quase aconchegante demais para a tensão que estava prestes a se instalar. O cheiro forte e familiar de café recém-passado se misturava com o aroma doce do bolo de fubá que Maria acabara de tirar do forno, espalhando-se pela cozinha e invadindo a sala. Havia algo naquele perfume que trazia memórias antigas, mas nem todas agradáveis.
O relógio antigo na parede, uma herança de família com ponteiros pesados e um leve tique-taque ritmado, marcava pouco depois das quatro. A luz que entrava pelas janelas laterais pintava o interior com um tom dourado e preguiçoso, fazendo o tempo parecer mais lento… mas para algumas pessoas naquela casa, o tempo parecia, na verdade, prestes a acelerar.
Catarina entrou primeiro, puxando Amanda pelo braço com a intimidade de quem reencontra uma velha amiga e não quer soltá-la tão cedo.
— Você não imagina como vai ser bom te ter aqui uns dias. — disse, num tom animado e sincero, ignorando completamente qualquer tensão subjacente. — A gente tem tanta coisa pra colocar em dia.
Amanda sorriu de forma suave, mas seus olhos… ah, os olhos percorriam o ambiente como quem revisita território conhecido. Reconhecia cada detalhe. A sala, o sofá no canto, a escada de madeira que subia para os quartos. E, mais do que tudo, lembrava-se de uma porta em particular, lá no alto… o quarto dele. Um quarto onde, anos atrás, tinha tido uma noite que ainda ardia na memória dela.
Da cozinha, Maria surgiu enxugando as mãos no avental florido, com o rosto iluminado por um sorriso genuíno.
— Olha só quem está aqui! — exclamou, com aquele tom maternal que parecia abraçar qualquer um. — Amanda, minha filha! Faz tempo que não te vejo.
— Pois é, Maria… — respondeu Amanda, avançando para abraçá-la. O toque foi breve, mas caloroso, o suficiente para acentuar a imagem de visitante bem-vinda. — A vida anda corrida. Mas aqui… — deu uma breve olhada em volta, como se absorvesse cada canto — aqui parece que o tempo para.
Lila entrou por último, silenciosa, carregando uma xícara vazia que pousou sobre a mesa com cuidado. Não disse nada. Apenas se posicionou perto da porta, o corpo levemente inclinado, os braços cruzados e o olhar fixo em Amanda. Não precisava de palavras, aquela observação atenta dizia tudo.
Catarina guiou Amanda até a mesa e serviu café para todos, distribuindo xícaras fumegantes com a mesma naturalidade de quem tenta manter o clima leve.
— Então, conta… como foi a viagem? — perguntou, sorrindo.
Amanda mexeu o café devagar, como se cada movimento tivesse um propósito.
— Tranquila. Peguei carona com uma amiga até a cidade. E por sorte encontrei o Taylor — disse, como quem narra um acaso trivial. — Aí aproveitei pra vir com ele.
Maurício, que estava encostado na soleira da porta que dava para o corredor, cruzou os braços. Seus olhos, atentos, não perdiam nada.
— Sorte mesmo, né? — disse, com um tom carregado de significado. Poucos perceberam a pontada escondida na frase… mas Lila percebeu.
Amanda, porém, nem piscou. Sorriu como se as palavras não tivessem qualquer veneno.
— Ele foi muito gentil de me trazer. E, olha… fazia tempo que eu não via o cowboy. Continua igualzinho. — Disse isso olhando para Catarina, mas o olhar, por um instante, desviou em direção à porta da cozinha, como se esperasse que a qualquer momento a figura dele surgisse ali.
Lila manteve-se calada, mas dentro dela algo começou a ferver. Cada frase parecia um prego sendo martelado com calma e precisão.
Maria colocou o prato de bolo no centro da mesa.
— Come, menina, tá quentinho. — disse, puxando o prato para mais perto de Amanda.

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