A madrugada caiu sobre a fazenda como um manto espesso. A chuva já havia diminuído, transformando-se em um gotejar constante que escorria pelas calhas e respingava nas poças de lama do pátio. O vento frio assobiava pelas frestas das janelas, fazendo as cortinas leves balançarem.
Lila rolou na cama por horas, incapaz de encontrar sono. Cada vez que fechava os olhos, via os faróis do carro de Taylor desaparecendo estrada afora. O coração latejava, uma angústia insistente que ela tentava calar repetindo para si mesma que não se importava. Mas importava, e muito.
Por fim, não suportou mais. Sentou-se na cama, puxou o robe leve que estava jogado na poltrona e o vestiu, amarrando o cinto com as mãos trêmulas. Descalça, atravessou o quarto em silêncio, como se não quisesse acordar ninguém, e abriu devagar a porta que rangeu baixinho.
O corredor estava mergulhado na penumbra. Apenas a luz fraca da lamparina esquecida na sala iluminava o caminho. Lila desceu os degraus devagar, o tecido do robe roçando em suas pernas, e entrou na sala de estar.
Parou diante da grande janela que dava para o terreiro. Encostou a testa no vidro frio e procurou no escuro qualquer sinal dele. Nada. Nenhum farol, nenhum cavalo, nenhuma sombra alta caminhando de volta para casa. Apenas o breu da madrugada e o som da água pingando das árvores.
O coração dela se apertou.
— Onde você foi se meter, cowboy teimoso… — murmurou baixinho, a voz quase inaudível, como se confessasse um segredo proibido.
Ficou ali por longos minutos, abraçada a si mesma, olhando para o vazio lá fora. Sentia a casa inteira mergulhada num silêncio sufocante, quebrado apenas pelo tique-taque distante do relógio da cozinha.
Finalmente, respirou fundo, tentando se convencer de que não adiantava esperar. Ajustou o robe nos ombros e voltou pelo corredor, mas cada passo parecia mais pesado. Dentro do peito, a preocupação latejava como um tambor, mesmo que seus lábios insistissem em repetir:
— Ele que se vire. Não é problema meu.
Mas era. E ela sabia disso.
Lila ainda estava parada diante da janela quando ouviu passos leves vindos do corredor. Ela se endireitou, tentando parecer indiferente, mas não teve tempo, Maria apareceu com um chalezinho sobre os ombros e uma bandeja simples nas mãos.
O cheiro suave chegou primeiro: limão, erva-cidreira e camomila, misturados no vapor que escapava da xícara.
— Eu sabia que ia te encontrar aqui. — disse Maria, com a voz baixa, quase maternal. — Quando a gente não dorme direito, o coração denuncia.
Lila piscou rápido, desviando o olhar.
— Eu só… desci pra beber um pouco de água. — murmurou, sem convicção.
Maria arqueou a sobrancelha, aquele jeito de quem já tinha visto e vivido demais para se deixar enganar. Colocou a bandeja sobre a mesinha perto do sofá e se aproximou, estendendo a xícara para a jovem.
— Bebe. Vai acalmar o corpo e a alma. Chá de limão, erva-cidreira e camomila. Receita da minha avó, nunca falha.
Lila hesitou, mas acabou aceitando. Envolveu a xícara quente com as duas mãos, deixando o calor invadir seus dedos gelados. Tomou um gole pequeno, sentindo a mistura suave descer como um carinho.
Maria se sentou ao lado dela, ajeitando o xale nos ombros.
— Tá preocupada com ele, não tá?
Lila travou, engoliu seco e tentou disfarçar.
— Preocupada? Eu? — riu sem humor. — Ele sabe se cuidar.
— Sei. — Maria concordou, paciente. — Mas isso não impede a gente de se preocupar.
O silêncio caiu entre as duas, pesado, até que Lila suspirou e encarou a xícara.
— Ele saiu naquela chuva como se o mundo estivesse contra ele. Nem olhou pra trás.
— Precisa de babá, de dois anjos da guarda e ainda de uma carroça para carregar essa teimosia toda. Nunca vi homem beber tanta cachaça e ainda achar que pode dirigir sozinho.
Lila se levantou devagar, sentindo o coração disparar ao ver a cena. Taylor parecia destruído, e aquilo a atingia mais do que queria admitir.
— Ele tá… muito mal? — perguntou num fio de voz, sem conseguir esconder a preocupação.
Maria foi rápida em responder, tentando suavizar:
— Só tá bêbado que nem um gambá. Amanhã vai acordar com a cabeça parecendo tambor.
Taylor ergueu o rosto, finalmente notando Lila parada alguns passos à frente. Os olhos dele, turvos e pesados, se fixaram nos dela e um sorriso torto, quase debochado, se desenhou em seus lábios.
— Olha só… a noivinha de mentira ainda tá acordada… tava esperando o quê, hein?
Maria deu um passo à frente, o encarando furiosa. Maurício apertou o ombro de Taylor, tentando fazê-lo calar. Lila, porém, não se moveu. Sentiu o peso das palavras bater no peito como porta em dia de vento, mas manteve o queixo erguido.
— Chega, menino. Você já falou demais por hoje.
Mas Taylor, ainda apoiado em Maurício, continuou:
— Eu posso estar bêbado, mas não sou cego. — Ele apontou, ou tentou apontar, para Lila, mas o dedo vacilava no ar. — Você fica aí, fingindo que não se importa… mas eu sei. Eu sei que se importa, sim.
Lila corou, sentindo as pernas fraquejarem, mas ergueu o queixo, tentando manter a firmeza.
— Leva ele pro quarto, Maurício. — pediu, com a voz firme apesar do nó na garganta. — Antes que ele caia no chão.

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