Maurício bufou alto, aquele sopro impaciente que mistura exaustão e cuidado, ajeitou melhor o peso do amigo nos ombros, um braço passando por trás do pescoço, a mão segurando o antebraço de Taylor e começou a arrastá-lo pelo corredor comprido da casa. O assoalho antigo rangia sob as botas encharcadas, cada tábua parecia anunciar a passagem dos dois, enquanto a luz amarelada dos abajures desenhava sombras compridas nas paredes. O cheiro de chuva entranhada no couro, junto com o de terra molhada e de cachaça que se misturava no ar.
— Vambora, cowboy. — murmurou, firme, num tom que era metade bronca e metade abraço. — Sua cama tá esperando.
Taylor ainda tentou se endireitar, como se o orgulho travasse o corpo mesmo quando as pernas falhavam. A voz saiu mais fraca, arranhada, tropeçando de sílaba em sílaba:
— Eu… não preciso de cama… só preciso que ela admita…
Mas Maurício não deixou terminar. O olhar de quem já viu o amigo grande cair de cavalo e levantar, o gesto rápido de quem sabe a hora de cortar a conversa.
— Cala a boca, homem. — resmungou empurrando-o porta adentro.
Na sala, Lila permanecia de pé como se os pés tivessem criado raízes no tapete. O peito arfava num ritmo que não obedecia à vontade, e o mundo parecia ligeiramente inclinado, como se a casa reconhecesse o que ela tentava negar. Maria aproximou-se em silêncio, com aquele jeito maternal que não pedia permissão, e passou a mão carinhosa pelo ombro da moça, em círculos lentos, como quem acalma um potro arisco.
— Vai descansar, menina. — disse baixinho, sem tirar os olhos do corredor por onde os homens sumiram. — Amanhã o sol nasce, e com ele, as respostas aparecem.
Lila engoliu seco. As respostas… Queria acreditar. Queria agarrar essa promessa como quem segura um lenço num vendaval. Mas a voz de Taylor, mesmo bêbado, especialmente bêbado, estava ali, agarrada no costado da alma. O que ele tinha dito, torto de cachaça ou não, já tinha se entranhado fundo demais para ser esquecido.
Maurício praticamente arrastava Taylor pelo corredor, cada passo era um tropeço. A camisa encharcada pesava como chumbo, e as botas sujas de lama deixavam marcas pelo assoalho de madeira. Maria vinha logo atrás, resmungando, mas com olhos cheios de preocupação.
— Homem grande desse jeito e eu ainda tenho que ajudar a cuidar… — bufou, embora já trouxesse duas toalhas grossas nos braços, uma muda de camiseta limpa pendendo do ombro e a expressão de quem tem remédios guardados em cada bolso da memória.
Quando finalmente empurraram a porta do quarto, o ar frio mordeu a pele quente de Taylor. Maurício, num movimento só, o sentou na beira da cama. O colchão afundou com um suspiro, e o cowboy quase tombou de lado, o corpo balançando como barco em água brava.
— Segura ele aqui, Maria. — pediu Maurício, abaixando-se ao alcance das botas. — Vou tirar isso antes que acabe com o piso inteiro.
Enfiou os dedos sob o cano do couro, pescou o calcanhar e puxou com força. A bota direita saiu com um estalo e um rangido molhado, a esquerda exigiu duas tentativas e um palavrão murcho. Taylor resmungou e a cabeça pendeu para frente.
— Não precisa… eu tô bem… eu… eu só queria ela… — a frase dissolveu no fim, como chuva fina perdendo força no telhado.
Maria arqueou uma sobrancelha. A velha sabedoria se acendeu no canto da boca, mas a língua preferiu a prudência.
— Ele tá delirando. — comentou num tom que de longe parecia neutro, mas no qual um ouvido atento reconhecia uma pontinha de sorriso. O olhar rápido que trocou com Maurício dizia, sem palavras, que ela ouviu muito bem.
Maurício desabotoou a camisa do amigo, mas o tecido ensopado colava na pele.
— Levanta esse braço, cara.
Maurício tirou a camisa molhada dele com um puxão e jogou sobre a cadeira. O corpo de Taylor estava quente e úmido, os músculos tensos. Maria o cobriu rapidamente com a toalha, tentando preservar um mínimo de dignidade.
— Bebe que nem um condenado e acha que aguenta discutir com tempestade. — ela resmungou, ajudando Mauricio. — Deus me livre, viu.
Mas Taylor voltou a murmurar, e com sua voz arrastada, quase um sussurro.
— Lila… você não entende… — o nome saiu com o cuidado de quem segura uma coisa preciosa com as duas mãos. — eu não queria te machucar… eu só… só queria você pra mim…
Maurício ergueu o olhar para Maria e os dois se calaram, como se palavras demais pudessem acordar algum bicho que era melhor deixar dormindo. Havia ali, pairando sobre o quarto, uma verdade com cheiro de álcool e coragem, essas verdades que só saem quando a guarda baixa.
“Eu só queria você pra mim.”
“O cheiro mais lindo… o gosto de pecado.”
Ela mordeu o lábio inferior, primeiro para controlar a lembrança, depois para tentar controlá-la de novo quando ela voltou mais forte. E cada frase embriagada vinha acompanhada da lembrança do toque quente na curva da sua cintura, da respiração dele, do coração perdendo a cadência onde antes só havia certeza.
— Droga… — murmurou baixinho, sem coragem de pôr mais sílabas no mundo, virando-se de lado e abraçando o travesseiro como se ele pudesse abafar o coração. O travesseiro não tinha o cheiro dele. E era justamente esse cheiro que, contra toda lógica, parecia impregnado na pele dela desde a primeira vez em que o corpo dela topou com o corpo dele e ambos fingiram que não era destino.
Virou de um lado depois virou para o outro. O tic-tac do relógio virou personagem central de uma peça que Lila não tinha vontade de assistir. Cada batida era um lembrete: Taylor estava a poucos metros dali, deitado, vulnerável, com o nome dela atravessado nos lábios. E, ainda assim, havia entre eles um abismo cavado por orgulho, medo e palavras mal ditas e malditas.
Um vento fino passou pela fresta da janela e mexeu de leve a cortina, trazendo o aroma tímido da noite que já se transformava em madrugada. Lila escutou os sons da fazenda que não dormia e não conseguia evitar pensar nele novamente. Pensou no que o tornava tão irritante e, por uma ironia dolorida, no que tornava isso mesmo tão fascinante.
Quando o céu começou a clarear, Lila ainda estava desperta. Seus olhos ardiam e coçavam por trás do cansaço, mas não fechavam, porque fechar os olhos, naquela hora, era uma confissão que ela não estava pronta para assinar.
Ela suspirou fundo, levou o antebraço aos olhos e pressionou, como se pudesse impedir que a emoção respingasse por fora. A garganta doeu, e a voz saiu num sussurro teimoso, o mesmo repetido pela centésima vez, exausto de si:
— Não significa nada… — disse para o quarto, que não respondeu. — Ele estava bêbado… não significa nada.
A outra voz, porém, aquela que não respeita argumentos e não atende por “razão”, inclinou-se por dentro dela e sussurrou com a gentileza cruel das verdades que importam:
“Ou significa tudo.”
E foi assim, dividida entre o orgulho ferido e a esperança proibida, que Lila recebeu o amanhecer: deitada, mas sem ter conseguido dormir.

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