A manhã chegou cinzenta, úmida, com um resquício de chuva pingando das calhas e o cheiro de terra lavada invadindo a cozinha. A casa inteira parecia falar baixo depois da tempestade da noite, a de fora e a de dentro. O relógio na parede marcava um tique-taque preguiçoso, e o fogão à lenha cuspia um calor manso que disputava espaço com a corrente de ar frio que entrava pela porta do quintal.
Lila desceu tarde, com os olhos marcados por uma noite que não existiu. Vestia um robe leve por cima da camisola, o cabelo preso num coque apressado, e um ar de quem se obrigava a funcionar no automático. Sentou-se à mesa, onde Catarina já folheava distraída um caderno de anotações, fingindo rever a lista de tarefas do dia. Amanda, impecável até no amanhecer, mexia o café na xícara como quem mexe um pensamento que não quer transbordar.
Maria ia e vinha entre pia e fogão, prática, silenciosa, como quem comanda a maré. Pôs uma cesta de pães sobre a mesa, uma manteigueira, um pote de geleia e o queijo branco que ela mesma salgou no dia anterior. Lila pegou um pedaço de pão sem vontade, partiu-o em dois, e o miolo elástico cedeu como o fôlego que faltou na noite passada.
Foi quando um som agudo rasgou o fundo da casa: um engasgo feio, seguido de outro e o inevitável.
Vômito.
O eco veio do corredor dos quartos, atravessou a sala de estar, entrou na cozinha e derrubou a postura de todo mundo por um segundo. Amanda ergueu os olhos de imediato, a colher parando no ar. Catarina lançou um olhar rápido para Lila. Um olhar avaliador e protetor.
Maria só suspirou como quem já conhecia aquele capítulo de cor. Enxugou as mãos no pano de prato e disse, sem drama:
— Eu vou passar um café bem forte para Taylor. O homem não tá nada bem.
Amanda começou a se levantar, com o rosto que era um misto de preocupação e impulso.
— Eu vou ver se ele precisa de ajuda.
Lila pousou o pão devagar sobre a mesa, erguendo o olhar para Amanda e com a voz macia só no começo, cravou:
— Pode deixar, Amanda. Eu sou a “noiva” dele, então pode deixar que do meu noivo, cuido eu.
O silêncio foi tão absoluto que até o relógio pareceu segurar um segundo a mais antes de bater. Catarina mordeu a boca para segurar um sorriso que, mesmo assim, escapou pelo canto. Maria, de costas para a bancada, deixou que a satisfação lhe curvasse os lábios enquanto alcançava o coador de pano.
Amanda, porém, não era de recuar sem devolver o golpe. Recompôs a coluna e soltou a colher na xícara com um tinido.
— Que gentileza a sua, Lila. Só espero que, desta vez, você não decida montar um cavalo no meio do remédio.
— Fica tranquila. — Lila passou manteiga no pão como quem afia uma lâmina. — Para cuidar de ressaca, eu não preciso de sela. Só de pulso firme. Coisa que eu tenho de sobra.
— Pulso firme? — Amanda arqueou a sobrancelha, sorrindo sem alegria. — Porque se trata de você, né? Sempre você no centro da bagunça e todo mundo correndo atrás para apagar o incêndio que você acende.
— Engraçado… — Lila ergueu a cabeça, com os olhos brilhando, daquela luz que é metade dor, metade ferro. — Ontem, quando eu “acendi” o tal incêndio, não vi você correndo atrás de mim debaixo da chuva.
O segundo engasgo de Taylor no fundo da casa cortou o ar como ponto e vírgula naquela frase. Catarina largou o caderno e apoiou os cotovelos na mesa, atenta, mas contente por dentro com a firmeza de Lila. Maria colocou água para ferver e, sem se virar, comentou do jeito mais neutro que a experiência ensina:
— Briga a gente guarda pra depois. Café não espera.
Amanda respirou fundo, juntou as mãos sobre o prato, e veio a réplica, afiada:

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