Na tarde seguinte, Sara acompanhou Mariana até o Residencial Bela Vista.
Assim que o carro entrou na via secundária esburacada, as sobrancelhas de Mariana se franziram.
Um condomínio antigo como aquele fora construído há muito tempo. Tinha fachadas gastas, chão cheio de crateras e as áreas verdes nas calçadas acumulavam caixas de papelão que haviam sido derrubadas pelo vento. O portão de ferro na entrada estava um pouco enferrujado e o velhinho na guarita da segurança ao lado cochilava em um casaco militar.
No instante em que os saltos de Mariana pisaram no azulejo meio solto da entrada ao descer do carro, a sua expressão já demonstrava um ar de repulsa.
— É aqui que ela mora? — Mariana, que nunca passara por dificuldades desde criança, demonstrava aversão por um lugar daqueles.
O peito de Sara enchia-se de satisfação.
Ela já tinha mandado investigar sobre o lugar, mas nunca havia ido lá pessoalmente. Vendo com os próprios olhos agora, o local era ainda mais decrépito e impenetrável do que ela imaginava.
No fundo do peito, um sentimento de satisfação cresceu nela, e ela quase não conseguiu disfarçar o sorriso.
Crescera em uma família normal, de classe média. Mais tarde, quando começou a estudar, seus pais adotivos fizeram um esforço para mandá-la a uma boa escola de ensino fundamental.
Durante a escola, ela teve várias colegas ricas. Comparada com elas, a vida de Sara era muito comum. Ela não morava em uma mansão, nem tinha motorista, então sentia uma pontada de complexo de inferioridade.
Quando voltou para a Família Rezende e viu Helena vivendo em um quarto imenso e elegante, que tinha tudo, a mente de Sara queimou de inveja.
Acontecia que tudo o que ela sempre desejou havia sido roubado por outra garota.
E agora, tudo estava ótimo.
Aquele condomínio em ruínas onde Helena estava alugando um apartamento era pior do que o lugar onde Sara havia crescido. Pelo menos, seus pais adotivos viviam em um bairro de classe média. Aquilo parecia uma vila.
Apenas em pensar no estado deplorável em que Helena se encontrava agora, após usurpar os seus vinte anos de vida luxuosa, um sentimento indescritível de gozo espalhou-se pela mente de Sara, como se a sua vingança tivesse se concretizado.
— Deve ser aqui. — Sara fingiu tranquilidade. — Disseram-me que era no apartamento 602 do bloco seis.
As duas andaram para dentro.
Pelo caminho, o rosto de Mariana foi ficando cada vez pior.
Havia alguns senhores no térreo jogando baralho em volta de uma mesa velha, cujo pé estava apoiado num pedaço de tijolo.
Uma mulher de meia-idade, vestindo um pijama grosso de algodão, passou por elas com uma sacola de verduras recém-compradas. Tinha o cabelo desgrenhado e usava chinelos.
Não muito longe, uma criança agachada perto do canteiro de flores brincava com lama, o nariz escorrendo sujo.
Sara até imaginou a cena em sua cabeça: Helena, escondida no apartamento apertado, com os olhos vermelhos, repreendida sem ousar revidar, ansiando por voltar à Família Rezende, mas envergonhada demais para tal.
Nesses últimos dias, Sara estava em uma situação ruim em casa, sendo excluída pelas outras herdeiras e com Thiago Bittencourt a tratando com desprezo.
Ficar rica por tanto tempo parecia incrível no início, mas com o tempo trazia frustrações.
Sara não encontrava muitas pessoas ao redor para poder oprimir. Afinal, todos ali eram ricos e pareciam viver muito bem.
Só restava Helena, morando na favela, para causar um senso de superioridade.
As duas foram andando até o bloco seis.
Ao erguer a cabeça e observar o prédio esburacado e empoeirado, a expressão de Mariana afundou mais ainda: — Sexto andar? Não tem elevador?
— Não. — respondeu Sara em um sussurro.
Mariana quase deu meia volta na mesma hora.
Mas já estavam lá, não tinha como voltar atrás. Só lhe restou agarrar a bolsa, franzir as sobrancelhas e começar a subir as escadas.

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