Primeiro, segundo, terceiro andar...
Os corredores estavam cheios do cheiro peculiar de prédios antigos. Poeira, fumaça de óleo, umidade e o azedo do que devia ser o pote de conservas de alguém deixado na porta. Havia pequenos anúncios desbotados nas paredes e o corrimão também estava grudento.
Mariana começou a ofegar no quarto andar.
Ela normalmente usava carro ou elevador, e não subia escadas há anos. Quando alcançaram o sexto andar, seu rosto estava branco e a sua respiração desregulada.
Sara também estava fadigada, mas se forçou a não demonstrar.
Por fim, parou em frente ao número 602, ergueu a mão e bateu à porta.
"Toc, toc, toc."
Logo em seguida, passos rápidos em chinelos soaram no interior.
A porta se abriu.
Era Sâmia Terra de pé no limiar.
Sâmia não havia ido trabalhar hoje. Vestia um suéter bege e meias-calças pretas, com o cabelo amarrado num coque solto na nuca. Ao abrir a porta, foi primeiramente pega de surpresa pelas duas mulheres super arrumadas, visivelmente deslocadas no lugar, antes de lançar-lhes um olhar cauteloso.
— Quem estão procurando? — O seu tom não era amigável.
Sara varreu Sâmia dos pés à cabeça, com um sentimento repentino de desdém.
Aquele tipo de mulher, que era nitidamente uma suburbana, não pertencia ao mesmo mundo que ela. Sem nem se dar ao trabalho de explicar, ergueu o queixo: — A Helena está?
Os olhos de Sâmia se estreitaram ao ouvir isso.
— Quem é você?
Sara engoliu a impaciência, fingindo uma postura superior de propósito: — Sou amiga dela.
Ela fez uma pausa, e então agiu com generosidade e continuou: — Sei que não é fácil para ela morar aqui, por isso viemos dar uma olhada. Viemos ajudá-la, dar um dinheiro a ela.
Sâmia antes estava apenas desconfiada, mas seu rosto empalideceu no mesmo instante ao ouvir as palavras "ajudá-la".
Sâmia era uma pessoa que tentava levar vantagem nos outros, que falava muito e era orgulhosa, mas que não deixava de ter autoestima.
Justamente por possuir essa autoestima, ela se sentiu particularmente incomodada com a palavra.
— Ajudar a ela? — Sâmia arregalou os olhos, os braços cruzados, e riu com frieza. — Quem é você para vir ajudá-la?
— Eu que estou falando besteiras? — Sâmia revirou os olhos. — Você chegou querendo doar dinheiro para ajudá-la. Não parece ser uma amizade sincera. Um verdadeiro amigo já saberia que ela tinha se mudado, ou então jamais teria falado daquele jeito.
Ela deu meio passo para a frente, com um olhar focado: — E então? Vocês só vieram aqui para se sentir melhores do que ela ao ver que ela estava passando aperto. Mas, não querem aceitar que as coisas estão indo bem para ela? Eu já conheço o seu tipo.
Sara ficou pálida e avermelhada ao ser estrangulada pelas palavras dela.
Veio ali sob o pretexto de prestar ajuda para encontrar um sentimento de superioridade, mas em vez de sequer vê-la, foi xingada por uma mulher mal-educada em um condomínio dilapidado.
A pior parte de todas era que Helena já não morava lá.
Já havia se mudado para alugar um bom lugar.
Apenas em constatar que a vida de Helena não fora uma desgraça após tudo aquilo, a mente de Sara produziu um zumbido, e algo desmoronou dentro dela.
Como seria possível?
Helena não deveria estar amargando infortúnios?
Como era possível que ela tivesse se mudado? Como é que ela podia arcar com um aluguel em uma casa melhor? Como era possível que o marido dela a amasse tanto?

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