Depois que Felipe foi jogado para fora do quintal por Matheus naquela noite, ele ficou dois dias inteiros deitado em casa.
Um hematoma gigante havia surgido na sua lombar, ele até curvava as costas para andar, rangendo os dentes de tanta dor.
A humilhação que sentia no fundo do peito doía muito mais que a lesão nas costas.
Ele, Felipe, já morava no Residencial Magnólias há uns cinco ou seis anos. Apesar de não ser um cara sério, ao menos era proprietário e costumava andar pelo condomínio se achando o dono do pedaço.
A administração do condomínio o tratava com educação e os vizinhos não tinham coragem de falar muito na frente dele. Todos sabiam que ele tinha ganhado vários apartamentos após a desapropriação da sua casa antiga. Ele tinha tempo e dinheiro sobrando, e era um marginal com quem ninguém se metia.
E agora, tinha sido jogado para fora por um inquilino.
Um inquilino!
Felipe ficava cada vez mais irritado só de pensar naquilo.
Claro que ele não tinha coragem de voltar a arranjar confusão com Matheus. Pelo resto da vida não iria se esquecer de quando aquele cara o ergueu com apenas uma mão.
Aquela força toda não era normal para uma pessoa. Ele chegou até a suspeitar se o sujeito já tinha sido militar ou praticado artes marciais no passado.
Mas ele não conseguia engolir aquilo calado.
Já que não dava para bater de frente, ele mudaria a tática.
Enfiado em casa, Felipe pegou o celular e abriu o "Grupo de Moradores - Residencial Magnólias".
O grupo tinha em torno de quarenta pessoas, reunindo basicamente quase todos os moradores. Ele não costumava ser muito ativo e no geral servia para avisos de corte de luz e água ou para as compras em conjunto nos feriados de Ano Novo.
Felipe abriu o grupo de conversa, pensou um pouco e começou a digitar.
"Aviso para todos do condomínio: vou lhes falar sobre aquela jovem novata que chegou no Prédio 1."

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