— Onde está o Leo? — Helena perguntou enquanto servia água para ela.
— Ele foi para o jardim de infância. — Isadora sentou-se no sofá. — Deixamos ele lá às oito da manhã todo dia agora, e o pegamos às quatro da tarde. Fico sozinha em casa o dia inteiro.
— Que bom, você finalmente terá um pouco de paz. — Helena entregou a ela um copo de água morna.
— Sim. — Isadora pegou a água e segurou com as duas mãos enquanto sorria.
Porém, havia uma preocupação pálida misturada ao seu sorriso.
Helena sentou-se em sua frente, observou-a por dois segundos e perspicazmente notou suas emoções.
— Isadora — ela perguntou docemente —, aconteceu alguma coisa?
Isadora olhou para baixo encarando a superfície da água no copo e ficou em silêncio por alguns segundos.
Ela, na verdade, estava hesitando se falaria para a Helena.
Dizer algo assim sempre parecia que ela era muito sensível e mesquinha. O marido alheio tinha sido promovido, alcançou um bom futuro e, sendo a esposa, ela deveria estar feliz.
Mas ela simplesmente não conseguia se animar.
— Bem... — Isadora soltou um murmúrio e levantou a cabeça olhando para Helena. — Helena, por favor não ria de mim.
— Por que eu riria? — Helena fixou os olhos seriamente nela.
Isadora respirou fundo.
— O Gabriel... ultimamente tem se cercado de mais pessoas. — A voz dela estava muito baixa. — Desde que ele foi promovido, o departamento vem prestando mais e mais atenção a ele e frequentemente o chama para reuniões, treinamentos ou viagens de negócios. É provável que ele continue subindo na carreira.
— Isso é ótimo. — Helena começou dizendo, mas ao ver a expressão de Isadora, de cara soube que viria mais coisa em seguida.
Isadora apertou os lábios e continuou: — É ótimo. Ultimamente, alguns ex-colegas divorciados têm mandado mensagens com frequência no WhatsApp sem motivo algum, falando coisas como "Faz muito tempo que não nos vemos, vamos marcar um encontro" ou "Ouvi que você foi promovido, meus parabéns". Coisas assim.
— As pessoas sempre mudam. — Isadora olhou para a superfície da água no copo, o tom melancólico, como se estivesse conversando com si mesma. — Não é que eu não confie. Mas eu já vi demais disso. Um homem que sobe na vida tem um futuro, o que atrai mais e mais pessoas aos seus arredores. No começo pode não ser nada. Mas conforme o tempo for passando e as tentações forem crescendo, quem garante que ele não mudará o resto de sua vida?
Ela levantou a cabeça encarando Helena e uma pontada de desinquietação cobriu o fundo de seus olhos:
— Helena, eu não sou o tipo de pessoa que dá piti à toa. Eu sei que eu não posso ter um controle muito restrito, não posso deixar o Gabriel pensar que eu não confio nele. Porém, algumas vezes... algumas vezes eu não posso evitar pensar em como talvez, ele achará que eu fiquei velha no futuro, ou comum demais para o valor que ele tem.
O coração de Helena azedou de leve ao ouvir o fim daquilo.
Ela entendia o que a Isadora sentia.
Os últimos anos de Isadora não haviam sido fáceis, ela que criou uma criança, fez os trabalhos domésticos e levou uma vida frugal e sufocante completamente sozinha. Ela não tinha a energia para vestir-se ou tempo para investir em si mesma. Além disso, Gabriel esteve avançando gradativamente nos últimos dois anos e teve contato com mais e mais jovens bem vestidos ao longo desse tempo.
Então, Helena estacou, lembrando-se que a mesma coisa parecia estar acontecendo com Matheus.
Matheus tinha só vinte e seis anos esse ano, não baseou-se em seus pais ou histórico familiar e já chegou na quantia mensal de cem mil se virando sozinho, já era uma figura fora da curva entre os homens.

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