A sala de estar estava quieta e silenciosa.
O céu lá fora ainda estava claro, a luz do quintal passava pelas portas de vidro, depositando uma tênue cor quente pelo chão.
Uma névoa fraca subia do copo de água morna na mesinha de centro. Isadora segurava o copo, com a ponta dos dedos ligeiramente contorcida e exalando um cansaço e desconforto indescritíveis.
Helena a olhou com uma dor no coração.
Ela conhecia aqueles sentimentos muito bem.
Não se tratava de desconfiança por Gabriel.
Fazia completo sentido temer instintivamente quando a vida mudava, ao perceber a lacuna criada no ambiente em que estavam, o número de pessoas com que contactavam e suas rotinas diárias; tudo por confiarem um no outro e valorizarem aquele casamento.
Com medo de que se o tempo passasse, ficariam presas no mesmo lugar enquanto o parceiro continuava a caminhar cada vez mais longe.
— Isadora — a voz de Helena soou suave —, ter esses pensamentos não quer dizer que você não confia no Gabriel, ou que o seu coração é apertado.
Isadora levantou os olhos para ela.
— Pense no porquê do Gabriel ser capaz de lutar por sua carreira lá fora com a paz em mente durante os anos recentes? — A voz de Helena era leve e constante: — Porque você estava em casa cuidando dela. Ele não precisava se preocupar por um segundo já que você tomava conta do Leo. Toda vez que ele chegava em casa ele tinha comida quentinha em um prato e alguém esperando-o, nunca precisou se preocupar se haveria alguém para cuidar de sua criança enquanto estava em missões de negócios.
Ela pausou: — Não se trata de quem vale mais do que o outro. Ninguém conseguiria manter tudo funcionando como você faz em casa.
Os olhos de Isadora começaram a molhar um pouco.
— Mas se eu pensar nisso no presente — Isadora deu um sorriso de deboche a si própria —, se eu realmente pedir as contas, ficar em casa por três anos para então sair atrás de um emprego depois que o Leo for para a escola... Ainda sobrará espaço para mim lá fora?
Suas palavras podiam ser sutis, mas suas preocupações por meio da voz eram tão reais quanto sua pele.
— Vou passar dos trinta anos, com um filho para criar e nenhuma experiência profissional recente no currículo. Que empresa vai me contratar nessas condições? E sem ter um lado ou outro para ficar, Gabriel ficará em níveis de sucesso cada vez maiores enquanto eu fico presa em casa para a vida. É até provável que eu perca a minha conexão com a sociedade...
— E o que você está pensando agora? — Helena questionou pacatamente.
— Não vou sair. — Isadora rapidamente sacudiu a cabeça. — Não importa quão doloroso e difícil, terei de me agarrar. Pode ser cansativo, mas ao menos posso assegurar a minha renda e a previdência, tudo trabalhando por conta própria, não quero arriscar tudo e deixar de apostar em nada nas mãos de Gabriel.
Helena assentiu.

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