Durante o dia, Helena não notou nada de diferente.
De manhã, ela arrumou o quintal, regou alguns vasos de hortênsias e, à tarde, passou um tempo no computador organizando materiais para o Canal Oficial, fazendo o tempo passar rápido.
Porém, ao entardecer, quando escureceu, a sensação de vazio começou a surgir.
Normalmente, a essa hora, ela já estaria na cozinha preparando o jantar, ou ouviria o som da porta abrindo lá fora, sabendo que ele havia chegado.
Mas hoje, a casa estava tão silenciosa que só se ouvia o leve ruído do ar-condicionado.
Preparou uma tigela simples de macarrão com tomate e ovo só para si. Ao sentar‑se à mesa para comer, não conseguiu evitar de olhar para a cadeira vazia à sua frente, sentindo um vazio pesar no peito.
Após a refeição, lavou a louça, tomou banho cedo, vestiu o pijama e se aninhou no sofá da sala.
A TV estava ligada em um programa de variedades sem muito conteúdo. Ela segurava o tablet, mas não conseguiu ler uma palavra sequer.
Ela olhava para o celular de vez em quando.
Quando Matheus chegou a Rio Claro à tarde, enviou uma mensagem dizendo que já estava no hotel e que teria reuniões mais tarde. Depois disso, não deu mais notícias.
Enquanto se perdia em pensamentos, o celular vibrou de repente.
Um convite de chamada de vídeo de Matheus no Whatsapp apareceu na tela.
Os olhos de Helena brilharam e ela atendeu imediatamente.
A tela tremeu um pouco, e o rosto de Matheus surgiu na imagem.
Ele parecia estar no quarto do hotel, com cortinas escuras e uma arandela ao fundo.
Ele ainda não havia trocado de roupa e continuava com o terno cinza-escuro que usara de dia. Apenas a gravata estava um pouco frouxa e o botão superior da camisa, desabotoado, revelando um trecho da clavícula e do pescoço firme.
As mangas da camisa estavam dobradas até a metade dos antebraços, marcando bem as linhas dos músculos.
Ele transparecia a exaustão de um dia agitado, mas ainda mantinha o foco. O olhar severo, iluminado pela luz quente, perdeu um pouco da intensidade habitual, ganhando uma suavidade incomum.
Ao vê-lo na tela, Helena não conseguiu evitar um sorriso: — Terminou o trabalho?
— Sim, acabei de voltar para o hotel. — A voz de Matheus soava um pouco rouca, indicando que ele havia falado bastante hoje.
Ele olhou para Helena na tela, deitada no sofá com um pijama macio, e seu olhar suavizou na mesma hora.
— Já comeu? — perguntou ele.
— Já, fiz um pouco de macarrão. — Helena respondeu. — E você? Bebeu esta noite?
— Um pouco, não muito. — Matheus massageou as têmporas. — O mercado aqui em Rio Claro é um pouco mais complexo do que o previsto. Tive uma reunião de duas horas à tarde e, à noite, jantei com o responsável por uma rede de restaurantes.
— Você deve estar muito cansado, então. — Helena o olhou com carinho. — Vá tomar um banho e descansar.
— Não tenho pressa. — Matheus a observou. — Trancou bem as portas e as janelas de casa?
— Tranquei. — Helena girou o celular para mostrar as portas e janelas da sala. — O portão do quintal também está trancado, e já olhei as câmeras. Estão todas funcionando normalmente.
— Hum. — Matheus concordou, ainda um pouco apreensivo. — Tem medo de dormir sozinha à noite?
Helena ia dizer que não, mas as palavras pararam na garganta.
— Um pouquinho. — Ela olhou para a tela, com uma voz suave. — É mais... falta de costume de não ter você do meu lado.
Ao vê-la com aquela postura obediente e dependente, o pomo de adão de Matheus se moveu levemente.
Após desligar, Helena refletiu um pouco.
Se Adriana a havia convidado de repente para um lugar daqueles, com certeza tinha algo formal para discutir. E, pelo tom, não parecia ser algo ruim.
...
Na manhã seguinte.
Helena acordou às nove.
Ela se arrumou de um jeito especial hoje. Vestiu um blazer cáqui claro ajustado, com uma blusa de alcinha de seda branca por baixo, uma calça jeans reta azul-escura e um par de saltos baixos nude.
Usou o modelador de cachos para dar um leve volume natural ao cabelo e fez uma maquiagem para o dia a dia, elegante e sem exageros.
Aquele visual tinha o frescor de uma universitária e, ao mesmo tempo, o ar profissional de uma mulher de negócios.
Antes de sair, ela tirou do armário a bolsa preta Prada que Matheus havia comprado para ela há alguns dias.
A bolsa era estruturada, com o couro texturizado exibindo um brilho discreto, e as ferragens prateadas refletiam a luz fria do sol.
Ela guardou o celular, as chaves, um batom e um pequeno pacote de lenços de papel, prendeu-a no pulso e se olhou no espelho.
Às dez da manhã, o shopping não estava muito cheio.
Assim que Helena entrou no Starbucks, avistou Adriana sentada em uma mesa perto da janela.
— Adriana. — Helena se aproximou, cumprimentando com um sorriso.
Adriana levantou a cabeça e, no momento em que viu Helena, seus olhos brilharam.

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