— Esposa?? Matheus, quando foi que você... Não faz só um mês que você chegou em Porto Real??
Ninguém respondeu.
Helena baixou a cabeça para calçar os chinelos e sussurrou: — Olá.
Depois, seguiu Matheus para dentro.
Theo ficou sentado sozinho no sofá. Seu braço segurando o controle remoto continuava no ar. Ele não se mexeu por um bom tempo.
O locutor da TV ainda gritava: — Inacreditável! Inacreditável!
Theo pensou que aquela expressão descrevia perfeitamente o seu próprio choque.
——
Matheus dormia no quarto principal, que tinha um banheiro pequeno.
O quarto principal tinha uns doze metros quadrados. Cabia só uma cama de um metro e meio, um armário e uma mesa dobrável. Não tinha mais espaço sobrando.
Mas estava muito limpo.
Os lençóis cinza-escuros estavam esticados. O cobertor verde-musgo estava dobrado de forma impecável e bem arrumado sobre a cama. Havia um notebook velho e alguns livros na mesa. Helena passou o olho pelas lombadas: "A Startup Enxuta", "De Zero a Um" e uma revista de negócios local de Porto Real.
A porta do armário estava entreaberta. Duas fardas pretas e algumas camisetas escuras estavam penduradas ali. Eram tão sem graça que pareciam ter sido compradas no atacado.
O quarto não tinha nenhuma decoração extra. Limpo, prático e frio. Exatamente como ele.
Matheus colocou a mochila de lona em cima da mesa, abriu o armário e tirou uma toalha limpa e uma camiseta preta.
— O banheiro é ali. — Ele levantou o queixo para a portinha no canto. — Você toma banho primeiro.
Helena continuou parada na porta, sem se mexer.
Ela olhou em volta daquele quarto, sentindo de repente que tudo era muito irreal.
Algumas horas antes, ela estava deitada na cama do segundo andar da Mansão Rezende. A cama tinha dois metros de largura, com colchão importado de látex e lençóis de seda. Só a roupa de cama custava quase dez mil.
Agora estava parada num quarto alugado de doze metros quadrados, na frente de uma cama dura de um metro e meio, com um conjunto de lençóis daqueles que se acha no supermercado por uns quarenta reais.
Ela não estava com nojo.
Ela só achava que a vida havia mudado rápido demais.
Tão rápido que ela nem teve tempo de reagir.
— O que foi? — Matheus perguntou ao notar que ela estava imóvel.
Helena voltou a si. Pegou a toalha e a camiseta, e murmurou: — Obrigada.
Ele olhou a hora. Fazia quase quarenta minutos.
Caminhou até a porta do banheiro e bateu duas vezes.
— A água tá quente? Vê se não pega um resfriado.
Ficou um silêncio lá dentro e a água parou de cair.
Logo depois, a voz de Helena surgiu atrás da porta, soando abafada: — Tá quente. Eu... já vou sair.
Mais alguns minutos se passaram e a porta se abriu.
Helena vestia a camiseta preta dele. Como Matheus tinha 1,92 de altura, a camiseta ficava enorme nela, com a barra cobrindo as coxas e a gola caída na clavícula. O cabelo dela estava molhado. O rosto estava lavado, os olhos ainda estavam vermelhos, mas ela não estava mais chorando.
Matheus olhou para ela, virou-se, pegou um cobertor extra no armário e o segurou.
— Você dorme na cama.
Helena estranhou: — E você...
— Eu durmo no chão.
Assim que terminou de falar, já tinha estendido o cobertor no chão ao lado da cama. Fez isso rápido, com a habilidade de quem estava acostumado com aquilo.

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