Valentina acordou devagar, ainda meio perdida entre sonho e realidade.
Primeiro veio o calor. Depois o peso firme do braço em torno da cintura. E, por fim, a certeza incômoda — e nada desagradável — de que não estava sozinha.
Abriu os olhos lentamente e deu de cara com o peito de Rafael, nu, forte, subindo e descendo num ritmo calmo demais para alguém que, horas antes, tinha sido tudo menos calmo.
Ela suspirou baixo.
— Você é louco… — murmurou, a voz rouca de sono. — E absurdamente possessivo.
O braço ao redor dela se apertou um pouco mais.
— Só quando se trata de você… — ele respondeu, ainda de olhos fechados. — E da empresa.
Valentina riu, um riso preguiçoso, satisfeito.
— Nossa… — disse, erguendo o rosto para encará-lo. — Fiquei lisonjeada agora. Estar no mesmo patamar da Montenegro Corp é um privilégio.
Rafael abriu um olho, depois o outro. O canto da boca se ergueu num sorriso lento, perigoso.
— Não se empolga. — murmurou. — As duas me dão trabalho.
— Mas só uma dorme na sua cama. — ela devolveu, provocadora.
Ele não respondeu. Apenas se mexeu, saindo da cama com a tranquilidade de quem não tinha absolutamente nada a esconder.
Valentina apoiou o cotovelo no colchão e acompanhou o movimento dele sem pudor algum. De cima a baixo. Sem pressa. Sem culpa.
— Senhor Jesus… — murmurou, quase para si. — Quem diria que Rafael Montenegro tinha essa bunda…
Ele parou no meio do quarto.
Virou o rosto lentamente.
— Essa bunda o quê, exatamente? — perguntou, divertido.
Valentina arregalou os olhos por um segundo… e depois sorriu, sem vergonha nenhuma.
— Durinha demais pra um homem que passa o dia mandando nos outros sentado numa cadeira de couro.
Rafael riu. Um riso baixo, masculino, satisfeito.
— Continua falando assim que eu vou esquecer completamente que tenho uma reunião.
Ele seguiu para o banheiro, ligando o chuveiro sem fechar totalmente a porta.
— Senhora Montenegro… — chamou, a voz ecoando pelo ambiente. — Esqueci a toalha. Poderia, por favor?
Valentina bufou.
— Você esqueceu de propósito.
— Prove.
Ela se levantou, pegou a toalha e caminhou até o banheiro.
Assim que entrou, foi puxada.
Sem aviso. Sem defesa. O corpo dela colidiu com o dele sob a água quente, o vapor envolvendo os dois num abraço denso demais para qualquer tentativa de racionalidade.
— Rafael! — ela exclamou, rindo, surpresa. — Você é impossível!
— Eu avisei. — ele murmurou, segurando-a firme pela cintura. — Possessivo.
A boca dele encontrou a dela com facilidade indecente. O beijo foi quente, molhado, carregado daquela intimidade que só nasce quando dois corpos já sabem exatamente o que fazer juntos.
Valentina se perdeu ali por alguns minutos — ou segundos, era impossível saber. A água, o toque, a respiração próxima demais. As mãos dele marcando território, a boca dela respondendo sem pedir permissão à razão.
— Você vai me atrasar… — ela murmurou entre um beijo e outro.
— Considera isso um investimento. — ele respondeu contra a pele dela.
Quando finalmente se afastaram, os dois estavam ofegantes, sorrindo daquele jeito cúmplice que só existe depois de algo muito bem resolvido… ainda que provisoriamente.
Saíram do banho juntos.
Rafael se vestiu primeiro, voltando à versão impecável de sempre. Camisa ajustada. Relógio no pulso. O homem que o mundo reconhecia.
Antes de sair, aproximou-se dela e deixou um beijo lento em seus lábios.
— O motorista vai te esperar. — disse. — Você vai com a Márcia até o hotel hoje. Quero tudo alinhado pessoalmente.
Valentina assentiu.
— Vou lidar com ela.
— Eu sei. — ele respondeu, confiante demais para ser só incentivo.
Ele ajeitou o paletó.
— Vou mandar trazer o café da manhã aqui no quarto. — completou. — Não vou tomar com você… tenho uma reunião em minutos.
Valentina fez um bico fingido.
— Que triste.
Rafael sorriu, aquele sorriso torto que sempre prometia confusão.
— Compensa depois.
Beijou-a mais uma vez, com carinho, e saiu.
Valentina ficou parada no meio do quarto, ainda envolta no vapor do banho, observando a porta se fechar.
Suspirou fundo.
O dia seria longo. O jogo, pesado.
O carro deixou a mansão Montenegro com a precisão de sempre.
Silencioso. Discreto. Blindado.
Valentina observava a cidade pela janela enquanto organizava mentalmente tudo o que precisava ser feito naquele dia. O corpo ainda carregava o calor da manhã, mas a mente já estava quilômetros à frente — contratos, fornecedores, cronogramas, riscos.
Quando chegaram ao Rosewood São Paulo, o impacto foi imediato.
O lugar respirava poder sem ostentação. Mármore, madeira nobre, linhas elegantes. O tipo de ambiente que não precisava provar nada — exatamente o que ela havia imaginado.
— É aqui que tudo vai acontecer. — Valentina murmurou, mais para si mesma.
Márcia caminhava ao lado dela, tablet em mãos, postura impecável, mas o olhar… o olhar era outro. Observador demais. Medido demais.
— Um local excelente. — comentou. — Embora… ousado para um evento dessa magnitude.
Valentina parou e virou o rosto lentamente.
Os olhares se cruzaram. Nenhuma das duas piscou.
— Eu não estou improvisando. — Valentina continuou. — Estou construindo. Cada escolha aqui tem motivo. Cada decisão tem respaldo.
Pegou o tablet da mão de Márcia sem pedir permissão.
— E qualquer contato feito sem meu aval… — disse, deslizando o dedo pela tela — será cancelado.
Devolveu o aparelho.
— Considere isso um aviso profissional. Não pessoal.
Márcia apertou o maxilar.
— Vittória não vai gostar.
— Eu não estou aqui para agradá-la. — Valentina respondeu. — Estou aqui para entregar um evento perfeito.
Houve um segundo de silêncio absoluto.
Então Márcia sorriu de novo. Mais fino. Mais venenoso.
— Claro, senhora Montenegro. — disse. — Vou respeitar suas diretrizes.
Mas o olhar dela dizia outra coisa.
Quando Márcia se afastou, Valentina soltou o ar lentamente. Não por medo. Por consciência.
Ela sabia.
Aquilo não tinha acabado ali.
Pegou o celular e digitou uma mensagem rápida para Moreira:
“Qualquer fornecedor, ajuste ou contrato: só com minha autorização direta. Se alguém citar Vittória, me avise.”
A resposta veio quase imediata:
“Entendido. Estou monitorando.”
Valentina fechou os olhos por um instante.
A sabotagem não viria em forma de escândalo óbvio.
Viria em detalhes. Em atrasos sutis. Em decisões “bem-intencionadas”.
Mas ela estava preparada.
Olhou novamente para o salão.
— Vai ser impecável. — murmurou. — Queiram ou não.
Do outro lado da cidade, sem saber exatamente como — mas sentindo — Vittória Montenegro apertava uma taça de cristal com força demais.
E Márcia…
Márcia ainda achava que estava jogando sozinha.
O erro delas?
Subestimar uma mulher que já tinha aprendido a lutar sem fazer barulho.

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