O quarto de Rafael tinha um tipo de silêncio que não existia no resto da mansão.
Ali, as paredes não pareciam julgar.
A luz da manhã entrava por frestas controladas, tocando a cama com uma delicadeza que não combinava com o nome Montenegro — mas combinava com o que acontecia ali dentro quando ninguém estava vendo.
Valentina estava sentada na beirada da cama, ainda com o cabelo solto, usando uma camisa dele que parecia ter sido feita pra provocar: longa demais para ser comportada, curta demais para ser inocente. A xícara de café aquecia suas mãos, e ela observava o movimento de Rafael pelo quarto como quem já sabia os caminhos dele de cor… e mesmo assim gostava de ver de novo.
Rafael mexia em papéis sobre a mesa baixa, mas era uma mentira elegante: a atenção dele já tinha ficado presa nela desde o instante em que acordou.
Depois de alguns segundos, ele se levantou sem pressa, foi até o aparador e voltou com uma bandeja simples, colocando-a entre os dois. Café, frutas, pão.
Aquela era a parte que mais confundia Valentina: ele podia dominar o mundo inteiro… e ainda assim escolher, com ela, uma manhã silenciosa.
Ela levou a xícara aos lábios e respirou fundo, como se aquele gesto fosse um pacto íntimo.
Rafael sentou-se ao lado, a mão tocando a dela de leve, quase casual.
— Você dormiu? — perguntou.
Valentina ergueu a sobrancelha.
— Eu estava praticamente desmaiada. — respondeu. — Não conta como dormir?
Rafael soltou um riso baixo, curto… e, depois, o olhar dele mudou.
Ficou sério. Focado. Aquele Rafael que não falava por falar.
— Ontem… — começou, devagar. — Foi peso demais?
Valentina piscou uma vez, pegou um pedaço de fruta e mastigou com calma, como se estivesse pensando com o corpo inteiro.
— Não. — respondeu. Simples. Direta.
Rafael franziu levemente a testa, como se não acreditasse na facilidade daquela resposta.
— Não era minha intenção jogar tudo em cima de você. — ele disse, a voz baixa. — O evento… a exposição… isso tudo.
Valentina virou o rosto para encará-lo de verdade.
O quarto era silencioso, mas ela conseguia ouvir a sinceridade dele em camadas — a preocupação que ele não costumava permitir aparecer.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno, bonito, cansado e corajoso.
— Rafael… eu não sou de açúcar. — murmurou. — E, sinceramente? Eu estou gostando do que vem pela frente.
A frase caiu entre eles como uma faísca.
Rafael a encarou como se ela tivesse confessado um crime.
— Sério? — ele perguntou, seco.
Valentina assentiu, tomando mais um gole de café.
— Sério. — repetiu. E havia certeza ali.
Rafael passou a língua pelo canto interno da bochecha, aquela mania de quando estava tentando controlar alguma coisa.
— Você tá achando isso divertido? — ele provocou, mas o olhar não tinha humor. Tinha alerta.
Valentina inclinou um pouco o rosto.
— Não é divertido. — respondeu. — É… interessante. — E então, como se fosse a coisa mais normal do mundo, completou: — Márcia é competente. E sabe o que faz.
Rafael parou.
Não foi uma pausa qualquer.
Foi o tipo de silêncio que só acontece quando alguém ouve algo que não esperava… e tenta decidir se ri ou se mata alguém.
Ele virou o rosto pra ela devagar.
— Você tá falando sério? — perguntou, incrédulo.
Valentina deu de ombros.
— Uhum.
Rafael se inclinou um pouco, cotovelo no joelho, o olhar mais escuro.
— Você sabe que ela tá a mando da minha mãe, não sabe?
Valentina não perdeu o sorriso. Pelo contrário — ficou até mais bonito, como se ela estivesse segurando um segredo na ponta da língua.
— Sei. — disse, tranquila. — Claro que sei.
Rafael a olhou por alguns segundos longos, como se estivesse tentando ler a mente dela — e falhando, o que era raro demais para ele.
— Então… — ele falou devagar. — Você enlouqueceu?
Valentina riu. Um riso baixo, delicioso.
— Não. — respondeu, simples. — Eu amadureci.
Rafael soltou o ar pelo nariz, descrente, e passou a mão pelo próprio rosto.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou, finalmente.
Valentina inclinou o corpo para mais perto, apoiando a mão na perna dele e encarando-o de um jeito que o desmontava.
— Não. — disse, firme, quase doce. — Eu sou grandinha. Sei me defender.
Rafael estreitou os olhos.
— Senhora Montenegro. — a voz de Márcia veio polida, prestativa, quase doce.
Valentina deixou a voz tremer.
De propósito.
— Márcia… — disse, e a palavra saiu como um soluço. — Eu… eu preciso de ajuda.
Um silêncio do outro lado.
E então, a isca mordeu.
— Aconteceu alguma coisa? — Márcia perguntou, calma demais.
Valentina inspirou, deixando o desespero crescer na medida certa.
— O Rosewood cancelou a reserva. — disse, a voz falhando. — Disseram que surgiu um compromisso no dia… devolveram o pagamento… eu… eu não sei o que eu faço.
Do outro lado da linha, Márcia não respondeu de imediato.
Mas Valentina ouviu.
Um som mínimo.
Uma respiração satisfeita.
Um sorriso que não devia existir — e existiu.
— Não se preocupe, senhora. — Márcia disse, finalmente, com uma tranquilidade quase ofensiva. — Eu sei exatamente o que fazer.
Valentina deixou escapar um choro curto, bem calculado.
— Obrigada… obrigada…
— Confie em mim. — Márcia concluiu. — Vou resolver.
A ligação encerrou.
Valentina ficou com o celular na mão por alguns segundos, olhando para a tela apagada.
Então fechou os olhos.
Respirou fundo.
E murmurou, com uma ironia que só ela entenderia:
— Que Deus me ajude a ser burra… e submissa.
Abriu os olhos.
E sorriu.

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