— Senhora…
A voz feminina a puxou de volta.
Valentina virou o rosto e encontrou a garçonete parada ao lado, bandeja impecável, postura discreta.
— Água tônica com limão e gelo. — pediu, sem pensar demais.
A mulher assentiu e serviu com cuidado. O copo frio tocou seus dedos e Valentina agradeceu com um aceno breve.
— Obrigada.
Levou o copo aos lábios.
O primeiro gole foi automático.
O segundo… estranho.
O gosto parecia diferente. Mais amargo do que deveria. Mais denso. Como se algo tivesse ficado no fundo da língua.
Ela piscou.
Uma vez.
Duas.
O foco demorou meio segundo a mais para voltar.
Valentina respirou fundo, tentando ignorar a sensação súbita de peso nos ombros. O corpo parecia mais lento. Os pensamentos, ligeiramente atrasados.
Talvez seja só cansaço, pensou.
A taça desceu novamente até a mesa.
O chão pareceu se mover um centímetro sob seus pés.
Um cansaço que não combinava com a noite. Nem com a adrenalina que ainda deveria estar correndo nas veias. Muito menos com o fato de que, minutos antes, ela estivera no centro do palco com o mundo inteiro assistindo.
O teto pareceu se afastar por um segundo.
— Valentina?
A voz de Rafael chegou nítida, próxima demais para ser ignorada. Ele já estava ao lado dela, a mão tocando seu braço com atenção imediata.
— Você está bem? — perguntou, baixo, o olhar afiado percorrendo o rosto dela.
Valentina respirou fundo antes de responder.
— Estou… — disse, mas a palavra saiu menos firme do que gostaria. — Só um pouco tonta, acho que tantos brindes e pouca comida, me deixou aérea.
Rafael franziu a testa no mesmo instante.
— Vamos sair daqui. Eu vou com você.
Ela balançou a cabeça, automaticamente.
— Não. — respondeu rápido demais. — Não precisa.
Ele não gostou do tom.
— Valentina—
— Rafael, por favor. — ela insistiu, tentando sorrir. — É só o banheiro. Ar, água… eu volto em dois minutos. Você ainda está cercado de investidores.
Ela olhou em volta, indicando o óbvio. Ele era puxado de todos os lados.
— Depois eu encontro a Bianca. — completou. — Ela está com o Lucas ali.
Rafael hesitou.
O instinto gritava para não deixá-la sair de perto.
Mas o salão exigia presença. E Valentina parecia… consciente. Apenas cansada.
— Me chama. — disse, sério. — Qualquer coisa, me chama.
— Eu chamo. — respondeu. — Prometo.
Ela se afastou devagar, abrindo caminho entre os convidados. O som do salão pareceu se tornar distante demais. As vozes, abafadas. Os rostos, borrados nas bordas.
Cada passo exigia mais esforço do que o anterior.
Estranho…
Ela não tinha bebido quase nada.
A mão tocou levemente a parede quando passou por um corredor lateral. O chão parecia inclinar um pouco.
— Senhora Montenegro?
A voz masculina surgiu ao lado dela com naturalidade demais.
Valentina virou o rosto.
O homem vestia o uniforme escuro da segurança do hotel. Postura profissional. Tom neutro. Presença discreta.
— Sim? — respondeu, piscando algumas vezes.
— O senhor pediu que eu a conduzisse até a sala de descanso. — disse ele, firme. — Para maior conforto.
Ela pensou em Rafael.
Pensou na noite longa.
Pensou que fazia sentido.
O corpo estava pesado para questionar.
— Ah… — murmurou. — Certo.
Deu um passo na direção indicada e sentiu a tontura aumentar. A mão escorregou no ar por um segundo.
O segurança aproximou-se um pouco mais, oferecendo apoio sem tocar de verdade.
— Com cuidado, senhora.
Valentina respirou fundo, tentando manter a clareza.
— Quando… — começou, a língua um pouco lenta — quando o senhor voltar, poderia avisar a Bianca Kato, por gentileza?
— Claro, senhora. — respondeu ele prontamente.
Aquilo a tranquilizou.
Bianca saberia onde ela estava.
Rafael saberia depois.
Tudo parecia… organizado.
O corredor era mais silencioso. A iluminação mais baixa. O carpete abafava os passos.
A cabeça de Valentina parecia cheia de algodão.
— Só alguns minutos… — murmurou, mais para si do que para ele.
O cartão magnético bipou.
A porta se abriu.
O quarto era grande. Luxuoso. As cortinas fechadas demais para aquele horário. A luz suave para um simples descanso.
Valentina entrou devagar.
— Obrigada. — disse, sem virar.
A porta se fechou atrás dela.
Clique.
O som foi baixo.
Definitivo.


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