O quarto parecia pequeno demais para a quantidade de verdade ali dentro.
O ar tinha cheiro de cigarro, sangue e vergonha — um tipo de mistura que gruda na garganta e faz o tempo ficar torto.
Isabella estava no chão, o rosto vermelho onde o tapa marcou. O vestido caro amarrotado, o cabelo perfeito agora com fios fora do lugar. E mesmo assim… ela riu.
Não foi um riso bonito.
Foi um riso histérico, quebrado, perigoso — como alguém que percebeu que perdeu o controle e decidiu tentar contaminar o ambiente com veneno.
— Você… — ela ofegou, rindo entre soluços — você não pode fazer isso comigo.
Rafael não se moveu.
Ele ficou em pé, imóvel, como se o corpo fosse apenas um suporte para aquela frieza que voltava ao lugar de origem. O olhar dele foi até Valentina por um segundo — ali, inconsciente, coberta, respirando — e voltou para Isabella como se ela tivesse deixado de ser uma pessoa e virado… um problema.
— Eu não posso? — Rafael repetiu, baixo, sem levantar a voz.
Isabella tentou se apoiar no chão para levantar, falhou, e riu de novo.
— Somos prometidos desde criança… — ela cuspia as palavras como se fossem correntes de ouro. — Você encostar a mão em mim… você sabe o que isso significa. Você sabe o que a família faz com quem rompe promessa.
Rafael inclinou a cabeça, quase curioso. Quase.
— O que mais você tem a dizer?
A pergunta veio seca, sem emoção. Não era uma abertura pra conversa. Era uma pá jogando terra.
Isabella encarou Enzo, sentado ali perto como se estivesse assistindo uma peça cara. Ele respondeu com um sorriso preguiçoso — e o gesto mais ofensivo do mundo: um beijinho no ar.
Isabella levantou o dedo do meio sem pensar.
— Quer saber? — ela explodiu. O riso sumiu, dando lugar a um ódio tão puro que parecia infantil. — Eu não me importo mais.
Rafael permaneceu em silêncio, esperando.
E Isabella, como quem finalmente decide se jogar da própria janela, falou.
— Foi eu. — ela disse. E o orgulho sujo apareceu no canto da boca. — Eu armei tudo isso. Tudo.
Bianca levou a mão à boca num reflexo, os olhos no corpo de Valentina como se tivesse medo do que veria se piscasse.
Isabella apontou para Enzo, o dedo tremendo.
— Eu só não contava que o idiota do Enzo estragaria a minha diversão.
Enzo sorriu mais, como se tivesse ganho um prêmio.
— Ai, Isa… — ele falou, com aquela voz de deboche bem educado. — “Diversão” foi generoso. Foi um show de quinta categoria.
Isabella virou o rosto, quase espumando.
— Cala a boca.
Rafael deu dois passos, parando acima dela. O olhar dele desceu como uma lâmina.
— Então você montou essa farsa… — ele disse, cada palavra pesada — …para destruir a minha noite?
Isabella abriu os braços, teatral.
— Não… não você. — ela riu, apontando com desprezo para Valentina. — Ela. Essa desgraçada tem tudo que é meu por direito.
A frase cortou a sala.
E Rafael, pela primeira vez desde que entrou, deixou um sorriso curto aparecer.
Não era um sorriso bonito.
Era aquele sorriso que nasce quando alguém finalmente confirma o que você já sabia… e te dá permissão para fazer o que vinha segurando há tempo demais.
— Você é burra. — Rafael disse, simples. Sem insulto teatral. Como constatação.
Isabella arregalou os olhos, ofendida.
— O quê?
Rafael apontou com o queixo para a cama, sem perder o controle.
— Você quis humilhar a Valentina. — ele falou. — Só esqueceu um detalhe básico: hoje, lá embaixo, diante do mundo… Valentina virou o rosto da Montenegro.
Isabella engoliu em seco.
Rafael aproximou um pouco mais o rosto, baixo o suficiente para ser íntimo… e cruel.
— Quando você tenta destruir ela… você tenta destruir a empresa. — E eu não perdoo ninguém que mexe com a minha empresa.
Isabella piscou, como se não tivesse pensado nisso. E não tinha.
— Pai, por favor… eu posso—
— NÃO. — ele rosnou. — Você é um azar pra essa família.
— Eu te repudio. Eu te deserd… — a voz engasgou numa raiva seca. — …eu te DESERDO.
A ligação caiu.
O som do “fim” foi pior do que um tiro.
Isabella ficou olhando para a tela apagada como se fosse um espelho que não devolvia mais nada.
E então desmoronou.
— Rafael… — ela sussurrou, quase infantil. — Por favor…
Rafael não se aproximou.
Ele apenas olhou, sem compaixão.
— Você vai implorar pra ela. — ele disse, apontando com o olhar para Valentina na cama. — Porque por mim… você já morreu.
Isabella balançou a cabeça, chorando.
— Ela… ela vai me destruir…
— Tomara. — Rafael respondeu.
A porta, do lado de fora, recebeu uma batida curta.
Moreira.
— Senhor… — a voz dele veio firme, profissional. — A polícia está aqui. E… conforme o senhor solicitou… dois repórteres autorizados.
Isabella ergueu o rosto num pânico absoluto.
— Não… não, não, não… Rafael, por favor! Você não pode fazer isso!
Rafael nem piscou.
— Pode entrar.

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