Ela apenas assentiu.
— Ele não acordou ainda.
Moreira olhou para Rafael por um segundo mais longo do que o habitual. O olhar técnico. Observador. Mas havia algo ali… preocupação contida.
— O senhor saiu da empresa imediatamente após receber a ligação do segurança. — disse com calma. — Dirigiu sob chuva intensa e não trocou de roupa ao chegar.
Valentina ficou em silêncio.
— Ele permaneceu ao lado da senhora durante toda a noite. — continuou Moreira, sem emoção na voz, apenas fatos. — Recusou-se a sair do quarto mesmo após a avaliação médica.
O aperto no peito dela aumentou.
— Ele… não dormiu? — perguntou, baixo.
— Dormiu apenas quando o dia já amanhecia. — respondeu Moreira.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, a porta se abriu novamente e o Dr. Pedro entrou, já abrindo a maleta com rapidez profissional.
— Como ele está?
— Febre alta. Delírios. — respondeu Valentina, sem rodeios.
O médico se aproximou da cama, verificando pulso, temperatura, pupilas.
Rafael se mexeu levemente sob o toque clínico.
— Exposição prolongada à chuva, exaustão física e estresse elevado. — murmurou o médico após alguns minutos. — O corpo cobrou a conta.
Ele preparou a medicação com movimentos precisos.
— Precisará de antitérmico, hidratação e repouso absoluto. Nada de trabalho por pelo menos vinte e quatro horas.
Valentina quase soltou um riso irônico.
Rafael Montenegro.
Repouso absoluto.
Mas não disse nada.
Apenas observou enquanto o médico aplicava a medicação.
— Ele vai acordar? — perguntou ela.
— Sim. — respondeu o médico. — A febre deve começar a ceder nas próximas horas. Mas ainda pode haver confusão mental e delírios leves.
O olhar de Valentina desviou involuntariamente para o rosto dele.
O médico fechou a maleta.
— Ambiente aquecido. Líquidos. Alimentação leve quando acordar. E supervisão constante.
— Obrigada, doutor.
Moreira acompanhou o médico até a porta, deixando o quarto novamente mergulhado em silêncio.
A bandeja de almoço foi trazida pouco depois.
Sopa quente. Chá. Alimentos leves.
Valentina comeu pouco.
Quase nada.
Sentada na poltrona ao lado da cama, o olhar voltando para ele repetidamente, como se precisasse confirmar que ele ainda estava ali.
Que estava respirando.
Que estava… bem.
O telefone corporativo de Rafael tocou.
Uma vez.
Duas.
Cinco.
Dez.
Ela olhou para o aparelho sobre a mesa lateral.
O nome de diretores, conselheiros, assistentes executivos surgia na tela.
Insistentes.
Urgentes.
Corporativos.
Ela pegou o telefone.
E, com um movimento simples e silencioso, colocou no modo silencioso.
Virou a tela para baixo.
Hoje não.
Hoje ele não é o presidente da Montenegro.
Hoje… ele é só um homem com febre.
As horas passaram devagar.
O calor do quarto estabilizou. A respiração dele ficou menos pesada. A febre começou a ceder lentamente, mas o sono continuava inquieto.
E então…
Ele se mexeu novamente.
Mais forte dessa vez.
A testa contraiu.
O maxilar tensionou.
— …não… — murmurou, mais audível.
Valentina imediatamente se inclinou levemente na direção dele.
— Rafael…
Ele não abriu os olhos.
Apenas respirou fundo, como se estivesse lutando contra algo dentro da própria mente.
— Sara… não… — a voz saiu quebrada. Dolorida. Quase implorando.
O estômago dela apertou.
De novo.
O mesmo nome.
O mesmo tom.
Não era casual.
Não era aleatório.
Era… emocional demais para ser apenas delírio sem significado.
Ela permaneceu em silêncio.
Imóvel.
Os olhos presos nela.
Atentos.
Sérios.
Como se cada detalhe importasse mais do que deveria.
Quando ela terminou, o quarto ficou quieto por alguns segundos.
— Porque veio atrás de mim daquela forma?— disse ela, por fim.
Ele sustentou o olhar.
— Porque você é minha esposa. — respondeu simplesmente.
Valentina apertou levemente as mãos sobre o colo.
Hesitou.
Uma vez.
Duas.
Três.
O olhar dela desceu por um segundo.
Depois voltou para ele.
Porque algo ainda ecoava na mente dela.
A voz dela saiu mais baixa desta vez.
Mais carregada de algo que ela mesma não sabia definir completamente.
— Rafael…
Ele a observou.
Sem desviar.
— Quem é Sara?
O nome ficou no ar como um corte fino.
Rafael não respondeu de imediato.
Os olhos dele, ainda pesados de febre, encararam Valentina como se estivessem medindo até onde aquela pergunta podia atravessar. Como se ela tivesse tocado numa porta que ele manteve trancada por anos — e agora a chave estivesse entre os dedos dela.
Ele inspirou devagar.
E fez o que sempre fazia quando algo ameaçava sair do controle.
Mudou o eixo.
— Quero saber… — a voz dele saiu rouca, baixa, mas firme o suficiente para tentar tomar a sala de volta. — O que aconteceu ontem.
Valentina piscou uma vez.
Duas.
E entendeu na hora.
A inversão.
A tentativa de puxar o foco.
De manter a mão no volante, mesmo quando o carro já estava derrapando por dentro.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos. Depois soltou o ar com um suspiro longo, cansado… e, de um jeito estranho, resignado.
Ela entendeu. Ele estava fugindo.

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