Valentina ficou de pé por alguns segundos, imóvel, como se o corpo não tivesse recebido a ordem de reagir ainda. A dor no peito não era uma dor bonita. Era uma dor bruta. Confusa. Misturada com choque, com luto antigo e com uma raiva que nem sabia pra onde apontar.
Ela deu um passo para trás.
Depois outro.
Como se precisasse distância física para suportar o peso daquela confissão.
E então sentou na poltrona, devagar, como quem desce para um lugar onde a queda não machuca tanto.
Rafael respirou fundo.
Lento.
Doloroso.
Como se puxar ar exigisse atravessar memórias que ele passou anos enterrando.
— Sara era… — a voz dele falhou pela primeira vez desde que começou a falar.
Ele parou.
Engoliu seco.
Olhou para as próprias mãos.
Mãos firmes. Mãos que construíram impérios.
Mãos que assinaram contratos milionários.
Mãos que nunca tremeram em reuniões.
E que, ainda assim… falharam em segurar uma única vida.
— Ela era cheia de vida. — continuou, mais baixo. — Barulhenta. Irritantemente otimista. Daquelas pessoas que entram em um lugar e mudam o ambiente sem esforço.
Valentina não interrompeu.
Sentada, imóvel, os olhos fixos nele como se qualquer piscada fosse perder detalhe.
Rafael deu três passos para trás.
Lentos.
Como se cada passo fosse puxado por uma lembrança.
Sentou-se na beira da cama.
Os ombros, antes sempre rígidos, estavam mais baixos. Mais humanos. Mais cansados.
— Eu tinha acabado de sair da universidade. — disse, com um leve sorriso amargo. — Montenegro exemplar. Filho perfeito. Herdeiro obediente.
Ele soltou um riso curto. Sem humor.
— Ela foi contratada como minha secretária.
Valentina inspirou devagar.
E soltou o ar como se precisasse se preparar para o que vinha.
— No começo… eu não me interessei por ela. — ele continuou. — Para mim, ela era apenas eficiente demais. Falava demais. Ria demais. Questionava demais.
Uma pausa.
O olhar dele perdeu o foco por um segundo.
Como se estivesse vendo outro tempo.
Outro escritório.
Outra versão dele.
— Mas a vivacidade dela… — murmurou. — A forma como ela tratava todo mundo como igual. Sem medo do meu sobrenome. Sem reverência. Sem cálculo.
Ele abaixou a cabeça.
— Aquilo me desarmou.
Valentina sentiu algo apertar no peito sem aviso.
Não era ciúme puro.
Era… entender.
— E a sua família…? — a voz dela saiu baixa, cuidadosa, como quem pisa em vidro.
Rafael soltou um riso seco.
— Como você pode imaginar… ela não foi aceita.
O olhar dele endureceu por um segundo.
Não de frieza.
Mas de memória amarga.
— Para eles, ela era só uma secretária. Sem nome. Sem herança. Sem utilidade política.
Ele ficou em silêncio.
Longo.
Pesado.
— Então eu tive um plano. — continuou. — Peguei parte da minha herança pessoal. Sem avisar ninguém. Sem autorização. Sem estratégia.
Valentina permaneceu sentada, presa àquelas palavras como se fossem um filme passando na frente dela.
— Comprei a cafeteria em Nápoles. — disse ele.
Ela piscou, surpresa.
Rafael sorriu de leve.
Mas era um sorriso quebrado.
Como se ainda estivesse segurando o volante.
— Eu lembro do som do metal. Do vidro quebrando. Do corpo dela sendo lançado contra o banco. E do silêncio depois.
Valentina levou a mão lentamente à boca.
Os olhos marejando.
— Quando tudo parou… — a voz dele saiu rouca — eu virei o rosto.
Uma pausa longa.
Dolorosa.
— E ela estava ao meu lado. Ensanguentada. Imóvel. Com o mesmo sorriso… que ela tinha segundos antes.
O quarto pareceu ficar frio.
Mesmo com o aquecimento ligado.
— Depois disso… escuridão. — continuou. — Eu acordei trinta e cinco dias depois. Em um hospital. Em coma induzido. E precisei de mais vinte dias para conseguir andar sem sentir que meu próprio corpo me traía.
Valentina apertou os dedos contra o braço da poltrona.
Como se precisasse segurar alguma coisa.
— A primeira coisa que perguntei foi por ela. — disse ele.
A voz dele caiu para um sussurro.
— Ninguém respondeu.
Silêncio.
Absoluto.
— Eu comecei a investigar assim que tive alta. — continuou. — Queria saber onde estava o corpo dela. Onde ela foi enterrada. O que realmente aconteceu.
Ele soltou um riso vazio.
— Sabe qual foi a resposta oficial?
Valentina balançou a cabeça negativamente, já prevendo a dor.
Rafael levantou o olhar para ela.
Cansado. Marcado.
— Falha mecânica.
— Aquaplanagem por chuva intensa.
— Airbag do passageiro não abriu.
O silêncio que caiu depois disso… não era só tristeza.

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