O telefone vibrou novamente, Valentina inspirou fundo antes de atender.
Ela deslizou o dedo pela tela.
— Oi…
Do outro lado, a voz veio calma.
— Oi, Val. Como você está?
Valentina apoiou o quadril levemente na mesa lateral, o olhar ainda perdido por um instante.
— Estou melhor agora. — respondeu, em tom baixo. — Me desculpa se te deixei preocupada. Não era minha intenção.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Está tudo bem. — disse Bianca com suavidade. — Moreira falou com Lucas. E o Lucas falou comigo.
Valentina soltou um pequeno suspiro nasal.
Claro.
A rede silenciosa que girava ao redor de Rafael Montenegro raramente deixava pontas soltas.
O silêncio caiu entre as duas.
Bianca foi a primeira a quebrá-lo.
— Val… aquele investigador… falou algo sobre os seus pais?
Valentina não respondeu imediatamente.
Em vez disso, caminhou devagar até o cofre embutido no armário do quarto. Rafael havia dado a ela um para guardar seus pertences.
Os passos foram contidos. Calculados. Como se cada movimento carregasse um peso que o corpo ainda estava aprendendo a sustentar.
Ela digitou a senha.
O clique suave do mecanismo ecoou baixo.
Por alguns segundos, ela apenas observou o interior.
O envelope estava lá.
Exatamente onde havia colocado.
Valentina o pegou com cuidado.
O papel parecia mais pesado do que deveria.
Ela voltou até a poltrona próxima à janela e se sentou lentamente, apoiando o envelope sobre o colo antes de abri-lo.
O som do papel sendo deslizado ecoou suave no quarto.
Do outro lado da linha, Bianca percebeu.
— Val… — chamou, mais baixo — o que está acontecendo?
Valentina retirou as fotos uma a uma.
Uma lágrima escorreu em silêncio antes que ela sequer percebesse.
Ela a limpou rapidamente com o polegar.
Respirou fundo.
— Bi… — a voz saiu mais baixa, mais firme ao mesmo tempo — talvez meus pais não tenham morrido por causa de uma falha mecânica.
Silêncio do outro lado da linha, ouviu-se apenas uma leve respiração contida.
O som sutil do papel sendo manuseado denunciava que Valentina ainda observava as imagens.
— O investigador tem certeza? — perguntou Bianca, com cuidado.
Valentina passou o dedo por uma das fotos, como se tocasse uma memória que nunca teve permissão de acessar de verdade.
— Tudo indica que sim. — respondeu. — Os freios não funcionaram. Os airbags também não. Choveu antes… o carro derrapou e capotou. E, ainda assim, há incongruências demais no laudo.
Bianca não falou por alguns segundos.
— E o que você vai fazer? — perguntou por fim.
Valentina recolocou as fotos parcialmente dentro do envelope, mas não o fechou completamente.
— O investigador está no caso. — disse com firmeza controlada.
— Você contou para o Rafael?
A pergunta veio direta.
Valentina ficou em silêncio por um breve instante.
Depois apoiou o envelope sobre a mesa lateral.
— Não. — respondeu. — Não contei. E não vou contar até ter provas mais concretas.
Ela se levantou e caminhou lentamente pelo quarto.
— Não quero ele se envolvendo com as minhas coisas… — continuou, em tom mais baixo — ele já tem coisa demais para se preocupar.
Do outro lado da linha, Bianca sorriu suavemente, mesmo que Valentina não pudesse ver.
— Se precisar de mim… — disse ela.
— Eu vou precisar. — interrompeu Valentina, com objetividade tranquila. — Preciso que você transfira mais dinheiro para aquele cartão. Vou te enviar os dados.
— Não posso fazer isso diretamente sem levantar suspeitas. Quero deixar ele com margem suficiente para trabalhar com liberdade. Sem limitações financeiras. Sem rastros óbvios.
— Ok. — disse Bianca com naturalidade. — Eu faço isso.
Valentina apoiou a mão na testa por um instante, fechando os olhos rapidamente antes de respirar fundo.
Perigoso.
E então Bianca respondeu, com doçura venenosa:
— Desejo o mesmo para você. Que tal um mini Montenegro de cara fechada, silencioso e julgando o mundo desde o berço?
As duas ficaram em silêncio por um segundo.
E então caíram na risada novamente.
— De todas as pragas que você já me jogou… — disse Valentina, ainda rindo — essa foi a pior.
— Eu sei. Sou excelente nisso. — respondeu Bianca, satisfeita.
O riso foi diminuindo aos poucos.
— Fica bem, Val. — disse Bianca, por fim, em tom sincero.
— Você também, Bi.
A ligação foi encerrada.
O quarto voltou ao silêncio.
Valentina permaneceu parada por alguns segundos, o telefone ainda na mão, antes de colocá-lo lentamente sobre a mesa.
O envelope continuava ali.
Aberto.
Ela o pegou novamente.
Retirou as fotos uma última vez.
Os olhos percorreram cada detalhe com mais firmeza agora. Não apenas dor. Não apenas choque.
Mas determinação.
Uma calma perigosa.
Ela recolocou as imagens dentro do envelope com cuidado absoluto e o fechou.
Depois segurou o papel contra o peito por um breve instante.
— Pai… — murmurou, em voz baixa.
Uma pausa.
— Mãe…
O olhar dela se ergueu, firme, silencioso, decidido.
— Vocês serão vingados. — disse, sem elevar o tom. — E eu vou me encarregar de limpar o nome Diniz.

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