Não era frescura de sua parte, nem vontade de fingir ou encenar algo.
A verdade é que, ao longo daqueles dias, ela estivera submersa em uma avalanche de emoções sufocantes vindas de todos os lados.
O trágico falecimento de Fábio, a teimosia de Sérgio em trazer Melissa para morar com eles e as questões não resolvidas entre ela e o marido; cada mínimo detalhe tornava impossível manter qualquer resquício de bom humor.
Por esse motivo, o seu ventre doía de vez em quando.
Esse desconforto, por sua vez, só a enchia de ansiedade e apreensão, e o choro recente de Ximena apenas havia intensificado a sua própria angústia.
— A sua barriga está doendo? — indagou Ximena ao perceber o seu comportamento atípico, enxugando as lágrimas às pressas.
— Não. — negou Natália de pronto, soltando as mãos.
— Vamos embora. — decretou, levantando-se logo depois de falar, forçando-se a esconder as próprias emoções sem sequer olhar para Sérgio.
Se continuasse ali por mais tempo, temia genuinamente que Ximena percebesse algo. Afinal, a sua mãe era uma mulher experiente.
Sérgio pareceu detestar aquela atitude. A frieza estampou-se de forma clara em seu rosto belo, mas ele também se levantou para se despedir de Ximena.
— Mãe, nós já vamos indo. Quando você e o pai tiverem um tempo, venham nos visitar.
Seu tom de voz era firme e cortês, acompanhado pelo respeito que a situação exigia.
Com os mais velhos, a sua conduta era imaculada. Tratava-se de um homem puramente elegante, de porte nobre e cujo refinamento familiar era digno de louvor.
Além do mais, as famílias Nascimento e Farias mantinham excelentes relações há tempos.
Ximena e Isabel Horta, a mãe de Sérgio, eram amigas de longa data e bastante íntimas.
Isabel tinha uma predileção especial por Natália; se a jovem acabou se casando com Sérgio, o crédito devia-se em boa parte à aprovação de sua sogra.
Consequentemente, Sérgio sentia a obrigação natural de manter a reverência diante de Ximena.
Ao observar tal comportamento, Natália ignorou-o, evitando olhar em sua direção.
— Tudo bem. — assentiu Ximena.
Com um aceno de cabeça, Sérgio pôs-se a caminhar, não dando a mínima atenção para Natália.
Aquele homem nem sequer se dava mais ao trabalho de fingir, pensou ela.
Ou quem sabe... será que ele já estava tramando... uma maneira de se casar com a Melissa?
— Espere. — A voz de Ximena irrompeu de súbito, estacando os passos de Sérgio e devolvendo a atenção de Natália ao presente.
Tendo dito isso, ela se virou e caminhou à frente, sendo prontamente seguida pelo genro.
Sem alternativas, Natália desistiu. Ainda que houvesse preocupação em seu coração, ela tentou acalmar a si mesma, convencendo-se a não pensar demais naquilo.
Ximena guiou Sérgio pelo corredor do salão principal até ao jardim lateral.
O espaço era deslumbrante e minucioso, trabalhado com grande esplendor. Banhado pelas luzes crepusculares do entardecer, trazia consigo uma sensação ampla e libertadora ao espírito.
Ela estancou o passo, e o homem a acompanhou, imobilizando-se para lançar um olhar à sua sogra.
Aquela era uma senhora de meia-idade prestes a chegar à casa dos cinquenta, muito bem cuidada, dotada de uma elegância pacífica.
— Você por acaso sabia que a Nati está doente? — disparou Ximena com franqueza, também com o olhar cravado nele.
— Peço desculpas, tenho estado atolado de trabalho e ela não me mencionou nada. — confessou Sérgio, surpreso antes de balançar a cabeça em negativa.
— O ânimo dela não tem sido dos melhores. — expôs Ximena com um tom brando, sem demonstrar assombro ou despejar censuras perante a resposta. — E o apetite também não. Nestes últimos dois dias tem comido muito pouco e reclamado de indigestão com alimentos gordurosos.
O olhar de Ximena se fixava nele de forma inquisitiva.
— Ela andou com náuseas e engulhos faz uns dois dias, disse que estava com problemas gástricos, mas se negou a tomar qualquer medicamento. — prosseguiu a sogra quando Sérgio uniu suavemente as sobrancelhas.

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