NARRADORA
Aurelius viu a taça de vinho tinto espirrar em cima de Miska e já não se surpreendia em nada com a ousadia de Savannah.
Até agora ele tinha estado segurando Miska para que ela não lhe fizesse mal e, pelo que via, teria que protegê-la ainda mais em silêncio daquela Ômega revoltada.
Porque, só de pensar que alguém podia machucá-la, até ele mesmo, a ira queimava em seu peito.
Ele desceu os degraus atrás dela, passando os papelões que na vida jamais tinha protagonizado por ninguém.
— Sua majestade! — Miska o segurou pela túnica quando ele passou ao seu lado seguindo o rastro de Savannah.
— A gente fala depois…
— Não! Como pode permitir que essa mulher faça isso comigo? É uma humilhação para você e para mim!
— Para de fazer uma maldita cena — Kaden a segurou pelo braço e falou com aquele tom baixo e perigoso.
— Mais cena do que a que ela fez? — os olhos de Miska brilhavam de raiva, o rosto ainda escorrendo vinho.
Sua roupa, cuidadosamente escolhida para agradar o monarca, estava manchada e sem possibilidade de salvação.
Os fogos de artifício, a música e os gritos eufóricos abafavam o tenso b**e-boca lá em cima.
— Ka… sua majestade… tem que castigá-la, olhe! — Miska se apontou, incapaz de se controlar.
Seu orgulho de Alfa pedia para destroçar aquela Ômega, mas ao ver os olhos do príncipe, ela soube que ele não a colocaria acima daquela mulherzinha.
— Eu disse que a gente fala depois, Miska, e não se faça de santa porque você também já aprontou com ela… — ele estava impaciente, o olhar indo para a multidão, perdendo o rastro de Savannah.
— Kaden… — Miska o agarrou com tanta força que sua mão tremia sobre a gola da túnica — eu é que tenho te curado e te acalmado todos esses dias, EU!
Ela levou a mão ao peito, onde a dor surda do despeito percorria todo o corpo.
— Ela só te deixou encantado, mas você vai descobrir que a mulher que você precisa ao seu lado sou eu — disse com os olhos úmidos. — Eu vou te esperar. Sei que vai me escolher e que isso é passageiro.
Kaden ficou olhando para ela por um segundo.
Ele não sabia de onde ela tirava tanta segurança, quando nem ele mesmo estava convencido disso.
Num dia, escolhia Miska, e no outro estava desesperado atrás da Ômega que o deixava totalmente pirado.
— Vai se trocar, volta pra Academia, eu vou… — Kaden sentenciou, e Miska teve que morder a língua para não jogar na cara dele o fato de que a deixaria sozinha e iria atrás de Savannah.
Ela abaixou a cabeça em concordância e sentiu a mão de Kaden tirando a dela da jaqueta.
Um brilho de algo a mais passou pelas pupilas da Alfa, pura malícia e vingança.
Não bastavam as traminhas idiotas para ridicularizar Savannah.
O que Miska tinha feito hoje era uma declaração total de guerra e, como tal, passaria agora às ações drásticas.
Por sua vez, Kaden finalmente se viu livre, mas mal deu um passo no próximo degrau e uma explosão de fumaça sobre as muralhas fez com que todos olhassem naquela direção.
As jaulas tinham sumido e, no lugar, havia três bonecas rituais, enfiadas em estacas e feitas de palha.
Claro que não estavam nuas.
Kaden reconheceu na hora a peça de roupa fina da boneca que estava no meio.
“Esse não foi o vestido… que a gente deu pra ela?” Ash perguntou com incredulidade.
Kaden entortou a boca cheia de sarcasmo e desceu as escadas com ainda mais pressa.
“Acho que hoje o castigo dessa Serafina não vai ficar só nas ameaças” ele rosnou, deixando sua aura dominante escapar, fazendo o povo sair do caminho.
Ele procurou pelos arredores.
Entre tantos rastros e cheiros, o aroma de Savannah se desfazia.
“Se eu tivesse todo o meu poder, isso não estaria acontecendo.” Ash estava de mau humor.
De repente, Kaden viu ao longe as duas colegas de quarto de Savannah caminhando ansiosas em direção a um dos túneis de saída.
Teve um pressentimento e as seguiu.
Escondido nas sombras, se aproximando delas, viu a pequena Ômega se abaixar para pegar alguma coisa.
— É a bolsinha de feitiço da Mônica e está misturada com gotas de sangue da Savannah!
— Espera, alguém vem… — a Alfa ruiva se virou com os caninos à mostra e um rosnado de aviso, mas ao sentir a aura do príncipe, ficou em silêncio.
— Onde está Savannah? — a pergunta de Kaden saiu rouca e urgente.

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