ISABELLA
“Você tem certeza de que é por aqui?” Thera me perguntou pela centésima vez.
“Você não tá vendo a mudança no ambiente e nesse prédio de nobres?”
Respondi, atravessando as portas escuras de entrada que davam para o dormitório dos lycans.
Um prédio enorme de tijolos vermelhos e telhado preto.
Pelo menos era assim que a cruz no mapa que Kiara me deu marcava.
Ignorei o olhar de pena que ela me lançou quando falei que tinha que ir a um encontro com o príncipe.
Parecia que estava me mandando pro matadouro… e, sinceramente, era exatamente assim que eu me sentia.
“Acho… que eu tô perdida”, confessei, mordendo o lábio inferior e olhando para a escadaria impressionante que subia do saguão até o segundo andar.
Aqui tudo gritava dinheiro antigo, poder, e a diferença entre os dormitórios dos simples mortais e os das famílias ricas era gritante.
Comecei a subir as escadas, hesitante, me sentindo intimidada pela carga de feromônios masculinos no ar.
No segundo andar voltei a hesitar, mas ouvi passos se aproximando de onde eu estava.
Fiquei tensa ao ver, no fim do corredor, um lycan ruivo e robusto arrastando pela orelha aquele lycan loiro a quem eu devia um favor.
Pareciam discutir por alguma coisa.
Quis me encolher para o lado, mas, óbvio, não passei despercebida.
— Ei, mas se não é a Serafina do Kaden. O que uma Omega pequenininha tá fazendo sozinha na toca dos predadores?... Me solta logo, Darius, que saco!
Ele tentou arrancar a mão do ruivo, que arqueou uma sobrancelha, soltou a orelha dele e se virou para mim.
Sob o olhar daqueles dois brutamontes, eu me senti como uma formiguinha.
— Eu… vim ver o príncipe… ele me chamou… —esclareci em voz baixa.
— Claro… imagino que ele esteja precisando de “consolo” —a risadinha do loiro não me agradou nem um pouco.
Pelo jeito, isso apareceu na minha cara, porque ele parou com as piadinhas idiotas.
— William, para de ser intrometido —a voz firme do ruivo soou ao lado dele; os dois eram como noite e dia.
— Se você tá procurando o quarto do príncipe, segue por aquele corredor, vai ver uma escada e sobe pro terceiro andar —explicou o tal Darius.
— Obrigada —respondi num murmúrio, querendo me esgueirar pelo pedacinho de espaço que eles deixavam livre.
— Ei, espera, linda… não fica brava, eu só tava brincando…
O lycan William tentou segurar meu braço, mas eu passei pelo lado do Darius e praticamente saí correndo pelo corredor.
— Eu não vou te comer!
— Deixa ela em paz, William, vamos pro treino, anda…
Olhei para trás a tempo de ver o macho ruivo empurrar a lombar do loiro com firmeza, arrastando-o escada abaixo enquanto ele resmungava todo tipo de bobagem.
Que paciência ele tinha com o William.
Segui pelo corredor acarpetado, sob as luzes quentes dos apliques, até chegar a uma escada mais discreta que levava ao terceiro andar.
A cada degrau, meu coração acelerava mais, pensando em tudo o que eu teria que fazer dali pra frente.
Não havia saída, eu ainda não podia me rebelar abertamente, continuava na pele da Savannah e o príncipe era perigoso demais.
“Só tem um quarto nesse andar. Quase nem dá pra notar o favoritismo”, Thera bufou, mas eu senti a tensão por baixo do sarcasmo.
Por mais que dissesse que o lobo do príncipe parecia misterioso e lindo, também deixava ela um pouco intimidada.
Fui me aproximando, pé ante pé, da porta enorme no fim do corredor, quase às escuras.
Engoli em seco e ergui a mão trêmula para bater, mas, nesse mesmo instante, a maçaneta girou por dentro.
Dei um passo atrás, como se tivesse levado um choque.
— Vossa alte… —minhas palavras congelaram ao ver a mulher que saía do quarto.
O cheiro doce demais dela bateu no meu nariz de um jeito enjoativo.
Estava com o cabelo solto e segurava o sobretudo fechado na frente do corpo.
Os olhos claros dela se cravaram nos meus, impiedosos e frios.
Ela fechou a porta atrás de si com toda calma do mundo.
— Então você veio pra Prova de Compatibilidade —disse em voz baixa e cortante.
Ela largou as lapelas para ajeitar o cabelo atrás da orelha e, pelo vão, deu pra ver o que tinha debaixo do sobretudo… praticamente nada.
Só uma lingerie minúscula de renda vermelha.
— O príncipe me chamou… —respondi entre dentes, me sentindo ridícula com aquela situação.
— Claro que chamou —a risadinha cínica dela me dava uma raiva…— Boa sorte pra fazer ele subir de novo, porque ele saiu bem satisfeito.
— Eu não vim aqui pra isso… —retrucai na hora, fechando os punhos e sustentando o olhar debochado dela.

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