“Liz Bianchi”
Os últimos dois dias se resumiram aos mesmos pensamentos, que voltam sempre que dou brecha.
Os beijos. As mãos dele na minha pele. Minhas pernas entrelaçadas na cintura dele. E depois, nossa primeira conversa surpreendentemente civilizada no escritório.
Sempre na mesma ordem.
— Terra chamando Liz! — A voz de Giulia me arranca dos devaneios, parando ao meu lado. — É a terceira vez que você olha para o mesmo desenho sem mudar nada.
— Estou um pouco distraída — respondo, largando o lápis na mesa.
— Um pouco? Você está em Marte desde que chegou. O que aconteceu?
— Nada — respondo rápido demais.
— Olha, te conheço há mais de quinze anos — diz, puxando a cadeira para se sentar ao meu lado. — Você nunca foi uma boa mentirosa. O que aquele idiota fez agora para te deixar assim?
Desvio o olhar, ponderando se conto.
Se eu contar, aguento um sermão. Se não contar, ela me tortura até arrancar tudo.
— Ettore me beijou — confesso, quase num sussurro.
— Ah, só isso? — ela responde, soltando uma risada espontânea. — Achei que fosse me dizer que você finalmente tirou as teias de aranha da…
— Não chegamos a esse ponto — interrompo, sentindo meu rosto queimar. — A gente se beijou e… bem, quase. Mas parei antes que fosse longe demais.
Giulia fica séria por um segundo — talvez menos — e depois desata a rir ainda mais.
— Amiga, às vezes você se comporta como uma adolescente, sabia? — diz, enxugando uma lágrima do canto do olho. — Com vocês morando juntos? Esses momentos vão ser… diários.
— Foi só… um momento de fraqueza. Dele e meu. Não vai se repetir.
— Se você diz… — ela solta, com um tom claramente desacreditado. — E depois disso?
Mordo o lábio, lembrando da conversa no escritório. Ettore me ouviu. De verdade. Por alguns minutos, fomos só… pessoas normais.
— Tivemos uma conversa civilizada — respondo, ainda meio surpresa de dizer isso em voz alta. — Sobre trabalho. Foi… estranho. Bom, mas estranho.
— Viu? — Giulia exclama, triunfante. — Ele está começando a ver a verdadeira Liz de novo. Não a garotinha vulnerável que ele reencontrou, mas a mulher que ele conhecia. Dias melhores virão!
Reviro os olhos para o otimismo exagerado dela.
— Não exagere. Foi só uma conversa.
— E um beijo. E quase sexo — ela enumera nos dedos, toda empolgada. — Para um homem que te odeia, isso é um progresso e tanto para uma única noite.
— Você não tem nada melhor para fazer? — pergunto, cortando o assunto. — Porque eu tenho.
Giulia se levanta, ainda sorrindo feito criança travessa, mas finalmente deixa o assunto Ettore Bianchi em paz.
O resto da manhã passa entre desenhos e provocações, até que chega a hora do almoço.
— Sem problemas — Antonio Montesi diz, forçando um sorriso tão falso que poderia ser comparado aos meus. — Continuaremos nossa conversa depois, Liz.
Observo-o sair, sentindo um misto de alívio e irritação enquanto volto a me sentar.
— Continua sendo um pesadelo ambulante para a família Montesi, hein — provoca, olhando para Ettore.
— Só estou cumprindo meu papel, Giulia — ele retruca, sem se abalar.
— E qual papel? — ela rebate. — Marido dedicado ou predador financeiro?
— Parem! — corto, antes que outro conflito aconteça entre eles.
— Ambos, aparentemente — Ettore responde, a voz ainda absurdamente calma. — Agora, se nos der licença, realmente preciso conversar com a minha esposa. A sós.
Giulia me olha, perguntando com os olhos se deve mesmo me deixar com ele. Quando assinto, ela sai, mas não sem antes lançar um último olhar mortal para o meu marido.
— Não combinamos nenhum almoço — digo, quando ficamos sozinhos.
— Não — ele concorda, se aproximando devagar, como se medisse cada passo. — Mas precisamos conversar.
— E sobre o que precisamos conversar? — pergunto, mantendo a voz neutra, apesar do nervosismo que sinto.
Ettore me encara por um tempo longo o bastante para me deixar desconfortável, antes de finalmente dizer:
— Sobre sua transferência para o Grupo Bianchi.

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