Lúcia Mendes
Voltei para o quarto da minha mãe com as pernas ainda meio bambas e o coração disparado, como se tivesse corrido uma maratona… ou feito algo bem pior.
Empurrei a porta com cuidado, tentando parecer normal. Normal. Como se meu cabelo não estivesse uma bagunça, como se minha boca não estivesse inchada e como se minha blusa não estivesse torta, metade por dentro da calça e metade pra fora.
"Filha." A voz da minha mãe veio calma, mas os olhos dela, atentos como sempre, me fitaram de cima a baixo. "Onde você estava? Falou com seu chefe?"
"Sim, já falei mãe, e depois fui no banheiro." respondi rápido demais, andando até a poltrona como se fosse me sentar.
Ela arqueou uma sobrancelha. "No banheiro… mas seu batom está borrado?"
Levei a mão ao rosto num reflexo e senti o calor subir até a ponta das orelhas. "É… passei a mão sem querer."
"Ahã." O tom dela era todo ironia, e eu já podia ver o sorriso escondido no canto da boca. "E a blusa aberta desse jeito? Resolveu tomar banho de roupa?"
Olhei para baixo e, claro, dois botões estavam abertos. Maldição. Tentei fechar rápido, sem encarar. "O ar-condicionado estava forte. Me deu calor."
Ela riu, aquele riso cheio de malícia que só mãe sabe dar quando descobre algo. "Se fosse calor, você estaria suada, não… descabelada."
"Por favor, mãe." enterrei o rosto nas mãos, implorando para o chão me engolir. "Você não vai começar com isso agora."
Ela se ajeitou na cama, cruzando os braços. "Filha, eu não preciso começar. Você já terminou o serviço sozinha."
"Meu Deus do céu." resmunguei, escondendo o rosto ainda mais. "Não aconteceu nada."
"Claro que não." Ela sorriu como quem acabara de me pegar roubando biscoito. "E eu sou a Madre Teresa."
Levantei a cabeça, desesperada. "Mãe!"
Ela gargalhou, me olhando com aquele brilho divertido nos olhos. "Sabe o que eu acho? Que você devia se olhar no espelho antes de entrar aqui. Porque se eu percebi…"
Arregalei os olhos. "Não, não fala que..."
"Todo mundo percebeu." Ela completou, triunfante. "E olha, nunca pensei que minha filhinha fosse tão..."
"Mãe, para, por favor. Você está me matando de vergonha." ela gargalhou.
"Eu não, eu não fiz nada, infelizmente. Estou aqui deitada nessa cama, sem poder ir a lugar algum."
"Então pare de criar histórias, isso não existe."

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