Lúcia Mendes
A luz cinzenta da manhã entrava pelas janelas do táxi quando ele parou em frente a nossa casa.
Eu não tinha pregado o olho.
O banco duro, o cheiro de desinfetante impregnado na roupa, a lembrança da minha mãe dormindo num leito de hospital, pálida demais... tudo grudado na pele como uma febre.
"Chegamos, filha."
A voz dela soou fraca, mas estava ali. Viva.
Assenti, engolindo em seco. Saí do carro antes mesmo de responder ao motorista, correndo para ajudá-la.
Ela estava magra demais. E tão leve que me doía o coração. Passei o braço dela pelo meu pescoço e a levei devagar até a entrada.
"Devagar, mãe."
"Você que tá me arrastando, menina. Para de empurrar."
Sorri, mesmo com a voz trêmula.
"Teimosia é hereditária, né?"
Ela só bufou.
Dentro da casa, subimos a escada com cuidado, parando vez o outra para ela respirar. Entramos em seu quarto e a ajeitei com cuidado na cama. Arrumei os travesseiros, puxei o lençol até o peito ossudo.
"Está confortável?" Perguntei atenta a todas as suas reações.
Ela suspirou.
"Eu tô bem, Lúcia. Não precisa ficar assim. O médico já falou que não é nada grave. Vai trabalhar, vai. Eu te conheço, sei como você me olha... como se eu fosse quebrar em mil pedaços a qualquer segundo."
"Eu ainda estou inconformada com a senhora. Deveria ter me ligado na hora que se sentiu mal."
"Para de drama. Olhando bem pra você agora... é você quem deveria ir se deitar. Está com cara de cansada."
Fiquei em pé ao lado da cama, braços cruzados, tentando parecer firme.
"É só impressão sua."
Ela arqueou uma sobrancelha.
"Você tem olheiras que dariam inveja a um panda."
Soltei um risinho cansado, passando a mão pelo rosto.
"Não mente pra mim, Lúcia. Se você precisar ficar, fica. Liga pro seu chefe e diz que hoje precisa do dia de folga."
Balancei a cabeça.
"Não. Eu preciso ir, eu demiti ontem o assistente, não tem ninguém que possa me cobrir. Mas vou ficar com o celular colado a mim. Qualquer coisa, me liga. Nem pensa em se levantar sozinha hoje, ouviu?"
Ela resmungou algo que não entendi.
Dei um beijo demorado na testa fria.
"Eu te amo, mãezinha."
"Também te amo. Vai logo, antes que eu te prenda aqui comigo."
Saí do quarto com o coração apertado, dando uma última olhada por cima do ombro antes de fechar a porta.
Na rua, peguei o primeiro táxi que passou, quase sem pensar. Olhei para o celular, atrasada. De novo.
"Mas que merda acontece comigo, que me atraso todo santo dia?"
O caminho até a empresa foi um borrão de prédios e buzinas.
Passei direto pela recepção, dando um simples bom dia, indo direto para o elevador exclusivo. Apoiei a testa na parede fria enquanto subia, tentando não desmaiar de cansaço.
Assim que cheguei ao andar da cobertura, cumprimentei a Teresa com um aceno fraco. Ela me olhou com cuidado.
"Bom dia, senhorita Mendes."
"Bom dia, Teresa..." minha voz saiu arranhada.
"Está tudo bem?"
Assenti rápido demais.
"Tudo ótimo. Só... dia longo."
"Mas ele nem começou..."
"Para você ver..." sorri de lado.
Ela pareceu querer perguntar mais, mas me deixou passar.
Abri a porta da minha sala com a intenção de largar a bolsa e desabar sobre a mesa e congelei.
Nate estava ali.
Sentado numa cadeira nova, em frente a uma mesa que definitivamente não existia ontem.
Ele ergueu o olhar devagar.
"Bom dia."

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