Nate Donovan
Saí da casa dela com o sangue fervendo. A porta bateu atrás de mim como um martelo de sentença, e o som pareceu ecoar dentro da minha cabeça mais do que no próprio corredor. Cada passo até o Porsche pesava como chumbo, como se o chão me puxasse para trás. Eu queria girar nos calcanhares, arrombar aquela porta de novo, segurá-la pelos ombros e implorar que me ouvisse.
Mas a lembrança dela , os olhos marejados, a voz trêmula dizendo que eu já tinha destruído a confiança entre nós, me paralisou. Não havia força suficiente no mundo que me fizesse ignorar aquelas palavras.
Apertei o controle e o carro piscou, mas fiquei parado, encarando o reflexo distorcido do meu rosto no vidro.
Droga.
Sentei ao volante, mas não liguei o motor de imediato. Respirei fundo, tentando organizar o caos que ela tinha deixado dentro de mim. Eu não sabia se estava mais puto com ela por ter escondido, comigo por ter acreditado no pior, ou com todo o resto do maldito mundo que parecia girar para afastar a gente.
O celular estava no console. Peguei antes que a lucidez me mandasse parar. Disquei o número de Olivia, e ela atendeu no primeiro toque.
"Senhor Donovan?"
"Olivia..." A voz saiu mais grave do que eu esperava. "O que a mãe da Lúcia tem?"
Do outro lado, silêncio por um segundo. "Ué... o senhor ainda não sabe?"
O estômago afundou. "Não. Me diga."
"Ela tem diabetes tipo 1, mas... o caso é mais sério. Há um agravante cardíaco e neurológico. É por isso que a Lúcia vive atenta a cada detalhe da rotina da mãe. A glicose dela oscila de forma agressiva e pode desencadear crises que atingem diretamente o coração e o sistema nervoso. O médico me disse que hoje ela conseguiu aprovar o tratamento suíço, mas a liberação leva sete dias... e é exatamente essa espera que está tirando o sono da Lúcia. Foi bom o senhor tê-la levado para descansar."
Fiquei sem ar por um momento. Cada palavra dela entrava como um golpe no peito.
"Merda..." Foi tudo que consegui dizer.
Agora tudo fazia sentido. O desespero da Lúcia, as respostas curtas, o segredo. E eu... eu tinha jogado na cara dela insinuações de que ela estava envolvida em esquemas corruptos.
Fechei os olhos, sentindo o gosto amargo da culpa. Eu podia ter perguntado antes. Podia ter falado com Olivia no momento em que suspeitei. Inferno, até a Tereza provavelmente sabia disso. E eu, que dizia me importar, não sabia nada.
"Obrigado, Olivia. Faça o melhor pela senhora Mendes, diga ao médico que qualquer custo extra deve ser passado a mim e não a Lúcia. Não quero que ela se preocupe mais com dinheiro nesse momento." murmurei antes de desligar.
Acelerei pela rua, engatando a primeira marcha como se pudesse queimar junto o nó que tinha na garganta. O motor rugiu, mas não acalmou nada.
Do painel, toquei o contato do Enzo. Ele atendeu com aquele tom animado de sempre. "E aí? Descobriu alguma coisa, Nate?"
"Descobri", falei, seco.

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