Felipe
A Aelyn me ouviu falar sem interromper.
O que, para ela, era um feito, já que ela não deixava ninguém falar.
Eu tinha contado tudo, o consultório diferente, o doutor Henrique que perguntou como eu era antes de perguntar sobre o olho, a palavra possibilidade que ficou ecoando na cabeça desde que eu ouvi. E depois contei sobre a casa, sobre o quarto azul, sobre a Laís dizendo que ia alugar o apartamento dela e ficar colada em nós.
Quando terminei, ela ficou em silêncio por exatamente dois segundos.
"Eu sabia", ela disse.
"Você não sabia de nada."
"Eu sabia que ia dar certo."
"Você não sabia que eu ia ao médico hoje."
"Eu sabia que alguma coisa ia dar certo." Ela falou com aquela convicção que não precisava de lógica para existir. "É diferente., fora que meu irmão Pedro sempre me conta as coisas."
Eu ia argumentar, mas deixei. Era estranho e ao mesmo tempo, fascinante como ela falava do Pedro, como se o conhecesse.
Estávamos no quarto dela, eu sentado na cama e ela no chão, do jeito que ela gosta de ficar quando está animada com uma conversa. Eu sabia porque ela tinha me explicado uma vez que era mais fácil pensar quando estava no chão, e eu tinha achado estranho, mas não tinha dito nada.
"Então quando você começar o tratamento", ela disse, com aquela voz de quem já está planejando, "a gente vai fazer muita coisa. Eu vou te levar para ver o jardim da vovó, que ela fala que é lindo, e a gente vai ao parque, e eu preciso te mostrar o meu quarto de verdade, não só ficar descrevendo..."
"Aelyn."
"O quê?"
"Ainda pode não funcionar."
"Mas pode funcionar."
"Pode."
"Então eu fico com o pode funcionar." Ela falou como se fosse simples, porque para ela era. "E enquanto não funciona, eu continuo sendo seus olhos. Que aliás eu faço muito bem."
Eu sorri sem querer.
"Você descreve as coisas com muito detalhe desnecessário."
"É porque as coisas têm muito detalhe."
"Você me descreveu a cor da meia da Laís na semana passada."
"Era uma cor específica! Era rosa mas não era rosa, era mais salmão, e você precisava saber disso."
"Eu não precisava."
"Você precisava e não sabia."
Fiquei quieto por um segundo, e então ri, daquele riso curto que escapa quando você desiste de ganhar uma discussão que nunca ia ganhar.
Ela riu junto, satisfeita.
Ficamos em silêncio por um momento, o tipo bom, sem precisar preencher.
E então eu falei.
Não tinha planejado. Saiu antes que eu pesasse.
"Você conhece alguma Emily?"
Ela pensou.
"Emily... Emily..." Ficou repetindo o nome como se estivesse procurando num catálogo interno. "Não. Por quê? Quem é?"
Passei os dedos pela beira do cobertor dela.
"É minha mãe", eu disse. "A de verdade. A biológica."
O silêncio dela dessa vez foi diferente, mais curto, mais processando.
"Como você sabe?"
Fiquei parado.
Ela continuou sem perceber, até que parou.
O silêncio durou um segundo.
"Felipe?"
Não respondi de imediato.
Tinha alguma coisa acontecendo dentro de mim que eu não sabia bem organizar ,não era raiva, não era aquele choro que vinha às vezes quando eu pensava no orfanato. Era outra coisa. Menor e maior ao mesmo tempo.
"Você tá bem?" Tentei me virar para outro lado, incomodado com a situação.
"Ela não é nada, ela não me quis."
Aelyn ficou em silêncio.
E então eu senti as mãos dela no meu rosto.
Pequenas, firmes, segurando meu rosto dos dois lados daquele jeito que ela tem que não pede licença, mas também não precisa.
"Mas a nossa família te quer." A voz dela saiu diferente, sem a pressa de sempre, sem o excesso de palavras. Só aquilo. "Pode parar de ficar pra baixo assim, tá? Eu não tinha família até um tempo atrás. Agora que tenho, não vou deixar nada deixá-la triste."
Fiquei parado dentro das mãos dela.
"Você é meio doidinha", eu disse.
Ela soltou meu rosto.
E eu soube, pelo som, que ela tinha dado de ombros.
"Sou sim", ela disse, completamente sem arrependimento. "E sou sua melhor amiga."
Eu não respondi.
Mas estava sorrindo.

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