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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 307

Felipe

Eu não devia ter ido embora.

Essa era a conclusão que eu estava tirando enquanto dirigia para a casa dos meus pais, com aquela sensação específica de quem deixou algo importante para trás e não sabe ainda o quanto isso vai custar.

Ela estava lá.

Com ele.

Eu sabia que era necessário, sabia que ela precisava conversar com o Luciano, que havia uma situação para ser resolvida, que eu não podia simplesmente ficar na calçada como um vigia até ele ir embora. Sabia de tudo isso.

E mesmo assim.

Entrei em casa com aquela agitação que não encontrava lugar para pousar, e a Sophia estava no sofá com um copo de refrigerante e aquela expressão de quem já estava esperando o espetáculo.

"Você conseguiu deixá-la lá", ela disse.

"Sim."

"E está arrependido."

"Não estou."

Ela me olhou.

"Estou", eu admiti.

Ela riu, aquele riso baixo e satisfeito que ela tinha quando estava completamente certa sobre alguma coisa.

Fui até a janela. Fui até a cozinha. Voltei para a janela.

Eu conhecia o gosto da boca dela agora.

Aquilo era a informação mais perturbadora que eu tinha na cabeça naquele momento, não de forma abstrata, não como uma possibilidade ou uma teoria, mas como memória concreta, física, daquele tipo que fica no corpo antes de chegar na cabeça.

O jeito que ela tinha vindo até mim perto do lago, com aquela determinação que era completamente dela. O jeito que o nome dela ficava na minha boca quando eu a chamava e ela se virava. O jeito que ela sussurrava o meu nome quando estava entregue, daquele jeito específico que eu nunca tinha ouvido de nenhuma outra forma.

Eu queria aquilo de volta.

Queria ela aqui, não lá, não terminando um relacionamento com um homem de quem eu continuava não gostando, mesmo sabendo que devia algum crédito a ele.

"Fica tranquilo", a Sophia disse, de algum ponto atrás de mim. "Vai ficar tudo bem."

"Não estou preocupado."

"Você está andando em círculos."

"Estou pensando."

"Felipe." A voz dela ficou mais suave. "Ela está terminando com ele agora. Amanhã ela é sua. Respira."

Parei.

Respirei.

Ela tinha razão, eu sabia que tinha razão. Era só uma noite. Era só algumas horas. Eu tinha esperado quatro anos, podia esperar mais algumas horas.

E então o celular tocou.

Serena.

Atendi antes do segundo toque.

"Serena, o que..."

"Felipe." A voz dela chegou quebrada, daquele jeito que não é mau humor nem drama, é desespero de verdade. "Você precisa vir pro hospital. Agora. Hospital San James. A Aelyn... ela desmaiou, Felipe, e ela está...." A voz sumiu por um segundo, voltou ainda mais partida. "Vem logo, pelo amor de Deus."

O celular quase caiu da minha mão.

"O que aconteceu? Ela está bem? Serena..."

"Vem logo." Ela desligou.

Fiquei parado por exatamente um segundo.

A Sophia já estava de pé quando eu me virei, ela tinha ouvido o suficiente pela expressão do meu rosto, porque ela me conhecia bem demais para precisar de mais do que isso.

"Felipe." A Serena apareceu do meu lado, a mão no meu braço. "Para. Ele não fez nada."

"Então por que ela está..."

"Foi o coração dela." A voz da Serena quebrou levemente nas bordas. "Parece que está com algum problema. O médico ainda está avaliando." Ela me olhou com aqueles olhos vermelhos. "Se o Luciano não estivesse lá..." Não terminou a frase.

Não precisou.

Eu soltei o colarinho do Luciano.

E então aquilo chegou, devagar, daquele jeito que as informações chegam quando você estava tão focado em outra coisa que precisam de um momento para se encaixar.

O coração dela.

O transplante.

O Luciano era cardiologista.

Estava se especializando em cardiologia.

Eu tinha pegado pelo colarinho o único homem naquele momento que sabia exatamente o que estava acontecendo com ela e que tinha provavelmente sido a diferença entre ela estar sendo avaliada agora e algo muito pior.

Fiquei parado.

O Luciano me olhava com aquela expressão que não era raiva, era algo mais complicado, mais cansado, daquele tipo de olhar de quem está com coisas mais importantes para pensar do que o homem que acabou de pegar sua gola.

"Ela está sendo examinada", ele disse, daquele jeito direto. "Assim que tiverem alguma informação, a gente fica sabendo. Eles vão me comunicar, solicitei algumas avaliações e entrei em contato com o meu residente chefe, ele está vindo para cá para avaliar..."

Eu não consegui responder.

A Sophia estava com a Serena alguns metros atrás. O hospital continuava com aquele movimento de hospital, indiferente, constante, aquele lugar que não para nunca porque não pode parar.

E eu fiquei parado no meio daquele corredor, sentindo o peso de tudo que tinha acontecido naquela noite, o restaurante, o jardim, o lago, o beijo, o pedido, e agora aqui, com o cheiro de hospital e a Serena em prantos, e o único pensamento que conseguia organizar, sendo que eu precisava vê-la.

Precisava saber que ela estava bem.

Tudo o mais podia esperar.

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