Aelyn
Felipe parou o carro devagar na frente da minha casa. O motor ainda estava quente quando desligou. Nenhum de nós dois queria que a noite acabasse, mas a realidade já estava ali, esperando na calçada.
Saímos juntos. Meu coração, que antes batia de desejo, agora batia de puro nervoso.
Luciano estava encostado no carro dele, de braços cruzados, sério. Assim que nos viu, ele se desencostou e veio direto até mim. Me envolveu num abraço apertado, daqueles que ele dava quando realmente estava preocupado.
"Tá tudo bem?" perguntou baixinho, perto do meu ouvido. "Eu te liguei várias vezes e você não atendeu. Fiquei preocupado pra caralho."
Felipe bufou alto, de forma audível, logo atrás de mim. Quase ri. Quase. Mas me segurei.
"Está tudo bem, Lu. A bateria do celular acabou, só isso."
Olhei para Felipe. Ele estava parado a poucos metros, com a mandíbula travada e um olhar assassino direcionado ao Luciano. Parecia que ia partir pra cima a qualquer segundo. E ver aquilo reforçou tudo o que tinha acontecido naquela noite.
Era real. O Felipe me queria de verdade.
"Ela estava comigo", Felipe disse, a voz fria e cortante. "Não tinha por que se preocupar."
Luciano se virou devagar, ainda com o braço ao redor dos meus ombros.
"É exatamente por estar com você que eu me preocupo. Eu não confio em você."
Arregalei os olhos. Meu Deus, que situação. O Luciano estava levando aquela encenação a sério demais.
Fiquei no meio dos dois, sentindo o ar quase crepitar.
"Felipe, é melhor você ir agora", falei, tentando manter a voz firme. "Eu vou conversar com o Lu agora. Amanhã a gente se fala, tá?"
"Não", ele respondeu na hora, sem nem piscar. "Do mesmo jeito que ele não confia em mim, eu também não confio nele."
Quase ri da cara de pau dos dois. Era quase cômico, dois homens adultos se olhando como se fossem se matar por minha causa. Respirei fundo, fui até Felipe e o abracei pela cintura, apertando meu rosto contra o peito dele.
"Deixa eu resolver isso, pelo amor de Deus", murmurei contra a camisa dele. "Vai pra casa. Por favor. Você me deu uma noite incrível, não quero nublá-la com brigas. Deixa eu manter a noite mais linda que já vivi em minha mente? Não precisa se preocupar... eu vou resolver isso."
Ele demorou um segundo, mas acabou cedendo. Antes de me soltar, encarou Luciano por cima da minha cabeça com um olhar que dizia "se você encostar nela do jeito errado, eu mato você". Depois segurou meu rosto com as duas mãos e deu um beijo demorado na minha bochecha, bem perto do canto da boca. Meu corpo inteiro reagiu. Eu queria muito mais que só isso agora que conhecia.
"Qualquer coisa você me liga." Então ele tirou o meu celular do bolso do blazer dele e me devolveu. Sorri para ele, mas ele estava tão tenso. Tão irritado que... não conseguiu corresponder.
Ele entrou no carro, bateu a porta com um pouco mais de força que o necessário e saiu. Os faróis sumiram no final da rua.
Suspirei aliviada e caminhei até a porta de casa. Luciano veio logo atrás. Assim que entramos, fomos direto para a cozinha. Eu me joguei numa cadeira, exausta.
"Acabou a bateria, é?" ele perguntou, encostado na bancada com um sorrisinho.

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