Felipe
Me virei para a Serena. Ela estava sentada na recepção, olhos vermelhos e inchados, mãos apertadas no colo como se precisasse se segurar para não desmoronar. Sophia estava ao lado, passando a mão devagar nas costas dela.
Sentei do outro lado da Serena, o peito pesado.
"Você já ligou pros seus pais?"
Ela assentiu, sem forças.
"Já estão voltando."
Fechei os olhos por um segundo. Os pais dela, viajando tranquilamente, agora voltando correndo por causa de uma noite que eu tinha planejado para ser perfeita. A culpa me acertou em cheio. Toda a emoção que causei pode ter desencadeado o problema.
"Me conta como foi", pedi baixo. "O que aconteceu.... Eu a deixei bem... e então..."
"Ela disse que já tinha passado mal na clínica mais cedo… mas não falou pra ninguém. Achou que não era nada." Serena me olhou, a voz falhando. "Os médicos ainda não sabem se foram as emoções do dia ou se o coração já estava dando sinais. Mas o Luciano… ele foi decisivo, Felipe. Se ele não estivesse lá, não sei o que teria acontecido."
Aquilo me atingiu como um soco no estômago.
Eu a tinha levado para longe de tudo. Para um jardim isolado, uma estrada escura. Se tivesse acontecido lá… se ela tivesse desmaiado nos meus braços, no meio do nada… eu não teria sabido o que fazer. Eu não sou cardiologista. Eu não teria sido rápido o suficiente. Eu poderia tê-la perdido ali mesmo, entre as plantas e as luzes bonitas.
Apertei os punhos até doer.
O Luciano se aproximou e levantei o olhar para ele.
"Felipe", disse ele, com aquela calma profissional. "Ela quer ver você."
Me levantei antes mesmo que ele terminasse a frase.
A enfermeira me guiou pelo corredor. Cada passo parecia mais pesado. Quando abri a porta do quarto, o mundo parou.
Aelyn estava na cama, pálida, cercada de aparelhos. O monitor cardíaco apitava ritmicamente. O cabelo solto espalhado no travesseiro, o acesso no braço, a luz fria do hospital deixando tudo mais frágil. Ela parecia tão pequena. Tão quebrável.
E ainda assim, quando me viu… sorriu.
Aquele sorriso dela. O mesmo que eu amava desde que éramos adolescentes. Mas agora estava cansado, fraco. A diferença entre a mulher que tinha me beijado com fome no carro e essa versão dela me rasgou por dentro.
Me aproximei rápido, puxei a cadeira e sentei bem perto. Peguei sua mão com cuidado, como se ela pudesse se desfazer.
"Por que você não me contou que tinha passado mal?", perguntei, a voz rouca.
Ela passou o polegar devagar nas costas da minha mão, aquele gesto antigo, carinhoso.
"Não queria estragar nossa noite te preocupando…"

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